Joaquim Haickel
26 de outubro de 2026
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Nem comentarei o fato de um ministro do STF, ex-advogado de um dos candidatos à Presidência da República, ter prorrogado o horário de votação no segundo turno das eleições. Tampouco tratarei, neste momento, das acusações de fraude e de golpe eleitoral que, caso comprovadas, configurariam crimes contra o Estado Democrático de Direito. Deixo essas questões para os advogados do candidato que se considera prejudicado por tais manobras.
O que farei é comentar, com você que me prestigia com sua leitura, algo relacionado ao que venho escrevendo quase diariamente sobre política. Penso que ontem consegui produzir um dos mais importantes desses textos. Reproduzirei aqui, entre aspas, alguns de seus trechos, para que fique muito claro o problema que previ que teríamos de enfrentar:
“[…] O que posso assegurar é que o eleito herdará um país quase destruído, com gravíssimos problemas econômicos, financeiros, fiscais, sociais e institucionais. Herdará também uma nação dividida quase exatamente ao meio, o que limitará consideravelmente sua capacidade de manobra.
Posso garantir que o próximo presidente precisará ser muito cauteloso, sábio, ponderado, consciencioso, compreensivo, generoso e altruísta. Precisará também ser íntegro, honrado, justo, humilde, corajoso, sereno, responsável, tolerante e dotado da nobreza e do espírito público indispensáveis ao exercício de tão elevada missão. Terá a missão de pacificar o país, pois somente assim terá alguma possibilidade de alcançar sucesso em sua empreitada. E eu torço por esse sucesso, assim como todo brasileiro que realmente deseja ver nosso país melhorar e nosso povo ser feliz. […]”
Você, que me lê agora, pode e deve perguntar se realmente acredito que aquilo que está dito nos parágrafos anteriores possa acontecer. Eu lhe responderia, honestamente, que não.
Não acredito que isso possa acontecer, nem com o resultado desta eleição, nem caso o resultado tivesse sido outro. Na verdade, nunca tive ilusões quanto à possibilidade de nosso país experimentar melhorias reais. A única diferença é que, se o resultado tivesse sido outro, eu ainda acalentaria a esperança de que a simples mudança pudesse trazer alguma melhora. Agora, diante do resultado, tenho a convicção de que nada melhorará e de que tudo ficará ainda pior.
Vejam bem: quem me conhece sabe que sou um otimista inveterado. E estou sendo otimista agora, ao dizer apenas que tudo vai piorar. Por aí, vocês podem imaginar o que realmente penso que acontecerá.
A sorte está lançada.*
*A expressão latina Alea iacta est significa literalmente “o dado foi lançado” e é tradicionalmente traduzida como “a sorte está lançada”. Ela indica que uma decisão irreversível foi tomada e que, a partir daquele momento, será necessário enfrentar todas as suas consequências, sejam elas favoráveis ou desastrosas.
Joaquim Haickel
25 de outubro de 2026
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Se eu dissesse que sei quem vencerá a eleição para a Presidência da República, estaria mentindo. E mentira é algo que abomino.
Poderia dizer que há um candidato cuja vitória eu não gostaria de ver, mas isso não significa automaticamente que deseje a vitória do outro.
Posso afirmar que a situação não é simples e que minha escolha será feita por exclusão, o que é uma pena. Ainda assim, penso que essa seja a solução menos ruim, ou, para usar uma expressão mais direta, a menos pior.
O que posso assegurar é que o eleito herdará um país quase destruído, com gravíssimos problemas econômicos, financeiros, fiscais, sociais e institucionais. Herdará também uma nação dividida quase exatamente ao meio, o que limitará consideravelmente sua capacidade de manobra.
Posso garantir que o próximo presidente precisará ser muito cauteloso, sábio, ponderado, consciencioso, compreensivo, generoso e altruísta. Precisará também ser íntegro, honrado, justo, humilde, corajoso, sereno, responsável, tolerante e dotado da nobreza e do espírito público indispensáveis ao exercício de tão elevada missão. Terá a missão de pacificar o país, pois somente assim possuirá alguma possibilidade de alcançar sucesso em sua empreitada. E eu torço por esse sucesso. Eu e todo aquele brasileiro que quer realmente ver nosso país melhorar e nosso povo ser feliz.
Acredito que você, que me lê com frequência, saiba que não sou uma pessoa religiosa nem particularmente ligada a igrejas de qualquer denominação. Sou, porém, um homem de muita fé. Acredito na existência de uma força, de uma energia universal que rege tudo e todos e faz com que as coisas aconteçam como podem e devem acontecer.
É por isso que rogo e desejo acreditar que o resultado dos acontecimentos de hoje represente um passo decisivo para que possamos conduzir nossa existência coletiva na melhor direção possível.
Não tenho a menor dúvida de que será difícil. Espero apenas que todos os envolvidos, tanto os vitoriosos quanto os derrotados, sejam capazes de fazer o melhor que estiver ao seu alcance pelo país e por nosso povo.
Joaquim Haickel
24 de outubro de 2026
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Não me peçam para ignorar as eternas promessas não cumpridas, as abundantes e reiteradas mentiras ou as tentativas de conquistar votos por meio de pacotes de “bondades”, compostos por medidas que deveriam ter sido implementadas muito antes, para beneficiar a população, e não utilizadas às vésperas das eleições na tentativa de cooptar os votos das pessoas mais vulneráveis.
Não me peçam para ignorar uma política econômica desastrosa, cujas consequências recaem principalmente sobre os menos favorecidos, enquanto a permanência no poder parece sobrepor-se às necessidades do país.
Não me peçam para esquecer a destruição da família e da escola, a desvalorização da religião, o desrespeito ao direito de propriedade, a falta de segurança, o incentivo à criminalidade e a disseminação da guerra de classes, alimentada pela política do “nós contra eles”.
Não me peçam para esquecer a cooptação criminosa do Poder Judiciário, sua utilização ideológica e partidária, nem o apoio dado a alguns de seus integrantes quando desrespeitam o devido processo legal, subvertem o Estado Democrático de Direito e violam os preceitos constitucionais.
Não me peçam para esquecer a implementação de uma hegemonia cultural que tem como lema “destruir para conquistar”, nem as infâmias propagadas por alguns de seus seguidores mais abjetos.
Não me peçam para fechar os olhos diante do aparelhamento ideológico do Estado e dos inúmeros e recorrentes casos de corrupção e de apropriação de recursos públicos praticados por um grupo que dominou nosso país ao longo de cinco mandatos presidenciais.
Não me peçam para ser juiz ou palmatória do mundo. Não me peçam para ser imparcial nem para fingir uma neutralidade que não tenho e não desejo ter. Exijam de mim coerência, correção, respeito e responsabilidade.
Não imponho meu pensamento a ninguém, nem desejo ou pretendo ser seguido. Não exijo que concordem comigo, mas exijo que respeitem meu direito de discordar. Reivindico o direito supremo e sagrado de pensar livremente, de me manifestar e de defender aquilo que acredito ser certo, verdadeiro e justo.
Não reivindico para mim nenhum direito que não reconheça aos outros, inclusive àqueles de quem discordo mais profundamente. Não desejo que ninguém seja silenciado por pensar de maneira diferente da minha, assim como não admito que tentem me silenciar ou me marginalizar por pensar de maneira diferente da deles.
A liberdade de pensamento e de expressão não pode ser privilégio de quem está no poder, de quem o apoia ou de quem pretende conquistá-lo. Ou é um direito de todos, ou deixa de ser liberdade para transformar-se em instrumento de dominação. E isso eu jamais aceitarei.
Reservo-me também o direito de estar equivocado, pois não reivindico o monopólio da verdade. Mas assumo integralmente a responsabilidade por tudo aquilo que penso, digo, escrevo e faço. E ajo assim amparado na Carta Constitucional que ajudei a redigir e a aprovar para reger os destinos de nossa nação e de nosso povo.
Joaquim Haickel
23 de outubro de 2026
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Analisei algumas das afirmações mais frequentes de Lula para verificar sua correspondência com os fatos. O resultado revelou um padrão recorrente de falsidades, exageros, apropriações de realizações coletivas, manipulações de números e acontecimentos históricos. Um verdadeiro festival de mentiras.
É muito provável que Lula seja, além do campeão nacional da mentira, o recordista internacional nessa prática, considerando suas décadas de protagonismo político, o longo período durante o qual exerceu o poder e a maneira como o utiliza em benefício próprio. O levantamento realizado deixa claro que ele recorre frequentemente à distorção da realidade sempre que isso lhe é política e pessoalmente conveniente, o que acontece quase sempre.
O padrão mais frequente não consiste apenas em inventar fatos. É algo bem mais elaborado:
Ele transforma sua participação em autoria exclusiva.
Apresenta como criação pessoal aquilo que seu governo ampliou, regulamentou ou ajudou a implementar.
Incorpora ao próprio currículo resultados produzidos coletivamente ou alcançados durante outros governos.
Converte a melhoria de determinados indicadores na solução definitiva de problemas que continuam existindo.
Mistura estatísticas, períodos e metodologias diferentes para produzir números favoráveis à narrativa que pretende construir.
Lula não criou o Simples nem o MEI, tampouco gerou 22 milhões de empregos formais em seus dois primeiros mandatos. Seus governos contribuíram para a ampliação do Simples, para a implantação do MEI e para a redução da fome. Reconhecer essas realizações, porém, não obriga ninguém a aceitar a apropriação pessoal de obras coletivas, a adulteração dos números ou a reescrita da história.
Lula é um mentiroso contumaz, e não se deve depositar confiança em quem transforma a mentira em método permanente de atuação política, de controle das narrativas e de manipulação da opinião pública.
Realizei pesquisa semelhante sobre declarações de Flávio Bolsonaro e constatei que ele também mente reiteradamente. A diferença mais relevante não está na pura e simples existência da mentira, presente nos dois, mas no tempo, na dimensão, no alcance e nos instrumentos de poder disponíveis para difundi-la.
Lula é protagonista da política nacional desde o final da década de 1970. Exerceu a Presidência durante doze anos, e seu partido comandou o Executivo federal por dezoito anos. Durante esse período, construiu uma narrativa destinada a apresentar realizações coletivas como conquistas pessoais e políticas públicas como manifestações de sua generosidade.
Dessa maneira, direitos financiados pela própria sociedade passam a ser apresentados como “bondades” concedidas pelo governante. O cidadão deixa de ser tratado como titular de direitos e passa a ser conduzido à condição de beneficiário agradecido. A assistência necessária se transforma em dependência política, e a vulnerabilidade social passa a ser explorada como instrumento de controle e permanência no poder.
Flávio Bolsonaro também mente e deve ser responsabilizado politicamente por isso. Lula, contudo, dispõe de algo que Flávio nunca teve: décadas de protagonismo nacional, doze anos no exercício direto da Presidência e outros seis anos de controle partidário da máquina federal. Suas falsidades, portanto, não são apenas frases de campanha. Elas ajudam a construir uma realidade política artificial, mantida pelo poder, pela propaganda e pela dependência e a “escravização” de milhões de brasileiros.
Tudo isso sem contar os diversos e enormes escândalos de corrupção ocorridos ao longo do período em que ele e seu grupo político estiveram ou permanecem no comando do país.
Essa prática é abjeta, repugnante, torpe, moralmente inaceitável e imperdoável. Mentir para conquistar votos já é condenável. Usar o Estado para transformar direitos em favores e cidadãos livres em indigentes dependentes é ainda pior: significa explorar justamente as pessoas mais fragilizadas que o governo afirma proteger.
Joaquim Haickel
22 de outubro de 2026
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Esta é a eleição do medo.
Medo de continuarmos sob um governo corrupto e aparelhado, no qual o Estado está a serviço de uma ideologia que se proclama democrática, mas apoia e incentiva a ruptura do devido processo legal, a perseguição de pessoas e grupos, o desrespeito à Constituição e práticas irresponsáveis que destroem a economia nacional.
Há também, do outro lado, o medo de que um novo governo possa significar a perda de liberdades individuais e coletivas e a redução de benefícios sociais; de que a diminuição do tamanho do Estado acarrete prejuízos para a classe artística; e de que o país sofra um retrocesso institucional capaz de conduzi-lo a um regime autoritário.
Esta é também a eleição da promessa vazia, da mentira e da compra disfarçada de votos.
São promessas repetidas ano após ano sobre medidas que seriam tomadas, mas nunca foram. Semeaduras anunciadas que jamais produziram colheitas e que voltam a ser prometidas sempre que interessam ao profeta. São números e índices manipulados para anestesiar uma plateia faminta e migalhas concedidas justamente na hora do voto.
Do outro lado, surgem promessas feitas por quem precisa apresentar-se como alternativa e, não encontrando outra saída, acaba recorrendo aos mesmos métodos daquele que pretende substituir. Promete o futuro sem saber se poderá realizá-lo, omite o que não lhe convém e silencia diante das verdades que poderiam afastar eleitores.
E eu, que vivi grande parte de minha vida na política e tanto me empenhei em compreender os mecanismos que a regem, sinto-me enojado. Minha capacidade de entendimento parece esgotada pelo cansaço e pela desesperança.
A última e única saída que consigo enxergar nasce de uma constatação elementar: não é admissível que as coisas continuem como estão.
Por mais incerto e imprevisível que seja o futuro, ainda me parece infinitamente mais aceitável do que a permanência deste presente, consolidado por um passado completamente desastroso.
Esta é a eleição do medo. Mas é justamente o medo de permanecer onde estamos que faz nascer a esperança de mudar.
Joaquim Haickel
21 de outubro de 2026
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Uma coisa interessante aconteceu comigo ontem, terça-feira, 20 de outubro. Deixem-me explicar melhor.
Há alguns meses, tenho dedicado minhas terças e quintas-feiras a uma nova atividade: a carpintaria.
Nesses dias, fico quase completamente desligado dos meios de comunicação, como telefone, rádio, televisão, computador e plataformas de redes sociais. Recolho-me à minha pequena carpintaria e desenvolvo projetos como tábuas de carne, gamelas, mesas, luminárias e esculturas em madeira.
Por isso, somente vejo as mensagens que me enviam e retorno as ligações que recebo quando encerro esse meu novo trabalho.
Curiosamente, ontem recebi alguns recados muito interessantes. O primeiro veio de um grande e querido amigo, que dizia ter estranhado uma postagem minha no Twitter sobre Janja, por considerar que aquele tipo de comentário não era do meu feitio. Nela, eu me mostrava indignado com o comportamento de nossa primeira-dama durante o debate entre os candidatos à Presidência da República.
Confesso que, quando li a mensagem desse amigo, nem me lembrava de ter feito tal postagem, até porque Janja é tão insignificante… Depois, recordei o motivo de haver publicado aquele comentário.
Ao observar o comportamento de nossa atual primeira-dama, lembrei-me de outras mulheres que ocuparam essa posição, como Marly Sarney, Ruth Cardoso e até mesmo Marisa Letícia. Jamais vi nenhuma delas tomar atitudes semelhantes às que essa senhora tomou naquele episódio e costuma tomar em outras ocasiões. A comparação levou-me a comentar o ocorrido.
Depois, recebi diversas mensagens de amigos comentando minhas últimas postagens. Com exceção de duas, todas foram enviadas por pessoas que afirmavam que minhas análises e meus pensamentos representavam exatamente aquilo que elas próprias pensavam e sentiam.
As duas mensagens divergentes vieram de uma querida amiga e de um novo, mas já bom amigo, ambos pertencentes a correntes políticas e ideológicas diferentes da minha.
A amiga, talvez por ser mais próxima, mandou-me, na lata, um “Comentário infeliz esse seu” e um “Me poupe”, porque eu havia publicado um vídeo no qual o presidente Lula aparecia sendo extremamente grosseiro com um auxiliar.
Sobre esse mesmo vídeo, o outro amigo enviou-me uma mensagem de áudio justificando que aquilo que Lula dissera era apenas uma brincadeira, uma forma carinhosa e costumeira de tratar seu fotógrafo particular, fruto de vinte anos de convivência entre os dois.
De todas as mensagens que recebi ao final de um dia de trabalho exaustivo, física e mentalmente, a que mais chamou minha atenção e me deixou embasbacado foi a de uma amiga perguntando se eu já havia assistido ao novo vídeo de Nikolas Ferreira, que, segundo ela, em poucas horas havia superado 60 milhões de visualizações, cinco milhões de curtidas e outros tantos milhões de repostagens.
Ora, não sigo políticos de nenhuma tonalidade ideológica. Sigo pouquíssimas pessoas, geralmente amigos, e não escolho quem acompanhar por preferências políticas, partidárias ou ideológicas, mas por amizade, respeito e admiração.
Seja qual for o conteúdo do vídeo de Nikolas Ferreira, consigo imaginar o que ele contém, assim como imagino o conteúdo das publicações de outros políticos, tanto de direita quanto de esquerda.
Cada pessoa escolhe suas referências, e essas escolhas dizem muito sobre ela. Eu faço questão de seguir pessoas como Mário Sérgio Cortella, Fernando Schüler, Mário Prata, Carlos Andreazza, William Waack e André Marsiglia, entre poucos.
Imaginem se eu iria seguir Janones, Boulos ou Erika Hilton!…
Joaquim Haickel
17 de outubro de 2026
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Assisti às entrevistas concedidas por Lula e Flávio Bolsonaro à TV Globo e confesso que algumas declarações me causaram perplexidade. Outras despertaram dúvidas que considero legítimas e que merecem respostas mais convincentes.
Antes de qualquer comentário sobre os entrevistados, faço questão de registrar que a melhor coisa das duas entrevistas foi Renata Lo Prete, que se portou com extrema elegância, muita inteligência e impecável isenção.
Comecemos por Lula.
Logo no início, o presidente afirmou: “Eu sou o governo.” A frase me fez lembrar Luís XIV, o Rei Sol, a quem se atribui a célebre expressão “O Estado sou eu”. Evidentemente, os contextos são diferentes. Lula falava de sua responsabilidade pelos resultados do governo, e não reivindicava diretamente poderes absolutos. Ainda assim, a comparação me ocorreu, sobretudo porque, na mesma entrevista, lamentou não ter conseguido fazer a população compreender suas realizações. Será que o problema está apenas na compreensão dos brasileiros?
O presidente afirmou que precisou de dois anos e meio para recuperar o país que recebeu. Mas não podemos esquecer que, dos últimos 24 anos, Lula e seu grupo político ocuparam a Presidência durante aproximadamente vinte anos. É evidente que governos anteriores não podem ser responsabilizados por tudo o que acontece depois deles, mas também não parece razoável tratar a história recente do Brasil como se ele e o PT tivessem sido apenas espectadores.
Lula declarou ainda que, quando assumiu, não havia dinheiro para praticamente nada. Entretanto, a dívida pública brasileira continuou crescendo e, segundo dados divulgados pela Reuters, alcançou 82,9% do PIB em 2026. A dívida não cresce exclusivamente por falta de controle das despesas, pois juros, inflação e desempenho econômico também interferem em sua trajetória. Mas como conciliar a preocupação declarada com o endividamento e a resistência em enfrentar a necessidade de ajustes fiscais?
No comércio exterior, o presidente afirmou que as relações comerciais com os Estados Unidos haviam diminuído 9%, enquanto as trocas com a China cresceram 20%, com a Indonésia, 15%, com a Alemanha, 16%, e com o Vietnã, 13%. Entretanto, os dados que consultei para janeiro a setembro de 2026 indicam queda de 6,8% na corrente de comércio com os Estados Unidos e crescimento de 11,1% com a China. Os demais percentuais ainda precisam de conferência equivalente. Ao que tudo indica, a verdade continua passando longe do presidente.
Outro momento que me chamou a atenção foi a discussão sobre o Supremo Tribunal Federal. Lula afirmou que seus adversários desejam afastar Alexandre de Moraes não apenas pelas suspeitas relacionadas ao Banco Master, mas também pela prisão de Jair Bolsonaro. Não apenas? Será que eventuais irregularidades envolvendo um ministro do Supremo já não seriam, por si mesmas, suficientemente graves para justificar investigação rigorosa, independentemente das motivações políticas de quem a defende?
Também me intrigou a discussão sobre o pedido de vista de Flávio Dino, que interrompeu a análise de questões processuais relacionadas à investigação de Moraes. O presidente afirmou não poder interferir nas decisões dos ministros, o que está correto. Mas o que a sociedade precisa saber é quando essas questões serão esclarecidas e se todos os envolvidos estarão sujeitos aos mesmos critérios de investigação. Sobre esse assunto, ele deixou escapar uma frase sobre Flávio Dino: “o que nós queremos”. A quem Lula se referia ao dizer “nós”? A ele próprio e a Flávio Dino?
Quanto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, Lula ressaltou sua autonomia e reconheceu ter considerado insatisfatórias as explicações que recebeu sobre sua participação em um evento relacionado ao caso Master. A autonomia institucional é indispensável, mas não elimina a responsabilidade administrativa nem a necessidade de prestar esclarecimentos.
Talvez a declaração mais surpreendente tenha sido a de que Lula desconhecia a ausência de reajuste do Bolsa Família durante seu próprio governo. O benefício permaneceu sem correção geral até setembro de 2026, quando foi anunciado um aumento de 15%, pouco antes do primeiro turno. É possível que o presidente não acompanhe pessoalmente cada detalhe da administração. Mas estamos falando de um dos programas mais importantes e identificados com sua trajetória política. Como explicar tamanho desconhecimento?
E por que tantas medidas de grande apelo popular foram anunciadas justamente às vésperas das eleições? A proximidade do pleito não demonstra, por si só, intenção eleitoreira, mas torna indispensável discutir o momento escolhido, os custos envolvidos e as fontes de financiamento.
Passemos agora a Flávio Bolsonaro.
Em minha opinião, Flávio saiu-se melhor que Lula, principalmente porque ser Lula é uma coisa muito complicada, algo quase indefensável.
Flávio pareceu à vontade, um tanto descontraído, e respondeu a quase todas as perguntas sem fugir muito delas, ao contrário do que eu esperava.
Respondeu com desenvoltura e credibilidade às perguntas sobre economia, administração governamental e reforma do Poder Judiciário, não dando muita margem para críticas.
Até mesmo sobre o caso Dark Horse, ele não se saiu tão mal, embora não tenha ficado muito claro por que o valor solicitado ao Banco Master para patrocinar o filme teria sido o dobro de seu custo de produção.
Penso, entretanto, que não se saiu muito bem quando respondeu sobre a possibilidade de colocar seu pai e seu irmão em cargos do governo federal.
Em relação ao pai, disse que nunca trataram desse assunto, o que não é uma negação direta. Caso ele nomeie Jair Bolsonaro para algum cargo, cometerá um erro inominável. Jair deve ocupar o cargo de pai do presidente, de conselheiro pessoal e particular, sem nenhum vínculo com a administração.
No caso de seu irmão, Eduardo Bolsonaro, Flávio negou categoricamente que fosse nomeá-lo ministro das Relações Exteriores, o que é muito bom, mas deixou em aberto a possibilidade de que ele ocupe outro cargo. Caso resolva nomear o irmão para qualquer outra função, cometerá um erro grave, pois nomeará alguém que poderá lhe causar grandes problemas e cuja eventual demissão criaria uma situação de consequências incalculáveis.
Houve, entretanto, uma pergunta que, a meu ver, o atingiu em cheio, envolvendo um assunto sobre o qual eu jamais havia ouvido falar.
Renata Lo Prete questionou Flávio sobre o PL 3.723/2019, apresentado pelo governo de seu pai, que, em sua versão original, propunha eliminar exigências de identificação de munições. A jornalista quis saber como essa medida ajudaria a combater o crime organizado. Flávio não respondeu diretamente e ainda tratou a questão como um “detalhezinho”.
Fico imaginando o que pode passar na cabeça de alguém para propor uma coisa absurda dessas. Por essa e por outras é que eu digo que a família Bolsonaro não precisa de opositores, pois seus integrantes são seus próprios maiores adversários.
O certo é que, em minha avaliação, a entrevista de Flávio Bolsonaro foi melhor que a concedida por Lula no dia anterior. Entretanto, uma coisa me chamou a atenção: assuntos bastante sensíveis para ambos os candidatos não foram abordados. Lula não foi questionado sobre o Mensalão, o Petrolão, o chamado BNDESão, a Lava Jato e o caso do INSS. Já Flávio não foi questionado sobre o caso das rachadinhas nem sobre as suspeitas de vínculos com milicianos.
Uma boa entrevista, porém, não garante um bom governo, assim como uma entrevista ruim não basta para definir toda uma administração. O que importa, em última análise, é a capacidade de transformar palavras em ações e promessas em resultados.
Considero indispensável que qualquer presidente, seja ele quem for, responda por seus atos, reconheça seus erros e apresente informações verificáveis.
Afinal, governar não é apenas dizer o que foi feito ou prometer o que será realizado. É demonstrar o que foi feito, explicar como foi feito e assumir as consequências do que deixou de ser feito.
Joaquim Haickel
13 de outubro de 2026
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Um importante jornalista disse certa vez, com uma ironia tão desconcertante quanto verdadeira, que costumamos considerar democracia o regime em que o grupo político com o qual simpatizamos controla o poder, e ditadura aquele em que estão no comando os políticos pelos quais nutrimos antipatia.
Essa afirmação revela uma das maiores contradições de nossa vida política: a dificuldade que temos de aceitar que a democracia não existe apenas para garantir nossos direitos, mas também para assegurar os direitos daqueles de quem discordamos.
É curioso observar como pessoas que defendem apaixonadamente a democracia quando estão no poder passam a questioná-la quando são derrotadas. Mais curioso ainda é perceber que muitos daqueles que denunciam os abusos de seus adversários se mostram tolerantes quando os mesmos abusos são praticados por seus aliados.
O que antes era autoritarismo transforma-se em demonstração de autoridade. O que antes era perseguição política passa a ser considerado cumprimento da lei. Mudam os personagens, mudam os discursos, mas permanece a disposição de julgar os acontecimentos não pela natureza dos atos, e sim pela identidade de quem os pratica.
Essa é uma das formas mais perigosas de hipocrisia política, porque transforma princípios universais em instrumentos de conveniência.
A democracia não pode ser uma roupa que vestimos quando nos favorece e abandonamos quando deixa de nos servir. Ela exige respeito às mesmas regras, independentemente de quem esteja exercendo o poder.
A verdadeira convicção democrática não se manifesta apenas na disposição de vencer eleições, mas principalmente na capacidade de aceitar derrotas. Isso não significa aceitar passivamente os atos dos vencedores. Significa reconhecer seu direito de governar, dentro dos limites da lei, assim como nosso direito de fiscalizá-los e criticá-los.
Afinal, vencer uma eleição não significa tornar-se proprietário do poder. O poder pertence ao povo, que apenas o empresta temporariamente a seus representantes, reservando-se o direito de retomá-lo, nas eleições seguintes, caso esteja insatisfeito com aqueles que escolheu para representá-lo.
Talvez nosso maior problema seja confundir fidelidade a princípios com fidelidade a pessoas, partidos e grupos. Defendemos a liberdade de expressão até que alguém diga algo de que não gostamos. Defendemos o devido processo legal até que o acusado seja alguém que desprezamos. Defendemos a independência dos poderes até que um deles contrarie nossos interesses.
Democracia não é quando os nossos governam. Democracia é quando todos têm o direito de disputar o governo, quando os vencedores respeitam os limites do poder e quando os derrotados preservam o direito de continuar disputando-o.
Joaquim Haickel
10 de outubro de 2026
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O título deste texto deveria ser suficiente para explicar tudo o que gostaria de dizer sobre o meu engano ao imaginar que Eduardo Braide teria imensa desvantagem na eleição para o governo do Maranhão por não contar com o apoio dos grupos políticos majoritários nos municípios do interior do estado.
Em minha avaliação inicial, feita no ano passado, atribuí um peso muito maior ao apoio político do que ao apoio popular. Não imaginei que pudesse ocorrer, em 2026, um fenômeno semelhante ao que acontecera sessenta anos antes, em 1965, quando José Sarney foi eleito governador do Maranhão.
Com o decorrer da campanha, fui observando as mudanças que aconteciam, e dois fatos foram determinantes para que eu reformulasse minha análise sobre o pleito.
Quando André Fufuca aderiu à candidatura de Braide, afastando-se do grupo liderado pelo governador Carlos Brandão, o sinal amarelo se acendeu em minha mente. O sinal vermelho surgiu quando o prefeito de Imperatriz, Rildo Amaral, realizou o mesmo movimento e também se afastou do grupo ao qual pertencia.
Há quem diga que os dois, assim como outros integrantes do grupo governista que apoiaram Braide, cometeram traição. Discordo dessa análise simplista. Não penso que tenham traído alguém. Apenas escolheram um caminho diferente.
Ninguém é obrigado a apoiar ou deixar de apoiar quem quer que seja, especialmente quando um grupo político passa a ser conduzido de maneira excessivamente restrita e familiar. Tampouco se pode exigir que alguém permaneça seguindo uma direção contrária aos seus próprios interesses.
O que realmente me fez perceber que Eduardo Braide venceria a eleição, porém, foram duas ligações telefônicas que recebi, no início de agosto, de amigos que me apoiaram quando eu era deputado. Fiz a ambos a mesma pergunta e recebi respostas praticamente idênticas: várias lideranças políticas antagônicas entre si apoiavam Orleans, mas o povo estava com Braide.
Depois desses acontecimentos e das informações que fui reunindo, reformulei completamente minha avaliação. A cada dia, tornou-se mais evidente o crescimento de uma candidatura cuja principal força não vinha das estruturas políticas tradicionais, mas do anseio popular por uma nova liderança e por mudança.
Haverá quem diga que as ações do ministro Flávio Dino contra o governador e seu grupo político contribuíram para a vitória de Braide. Eu Discordo. Se essa interferência tivesse sido determinante, deveria ter beneficiado principalmente o candidato apoiado por Dino, o que não ocorreu. Seu candidato não chegou a ter 10% dos votos.
A votação de Eduardo Braide foi, antes de tudo, consequência do trabalho realizado por ele à frente da Prefeitura de São Luís. Também refletiu a crescente antipatia da população pelos grupos políticos tradicionais, vistos por grande parte do eleitorado como antigos, fechados e ultrapassados.
No início, cometi o erro de superestimar a força das lideranças políticas e subestimar a capacidade do eleitor de tomar sua própria decisão. Imaginei que a soma dos apoios municipais prevaleceria sobre o sentimento popular. O resultado mostrou exatamente o contrário.
A máquina pode reunir prefeitos, vereadores, deputados e lideranças. Pode organizar palanques, estabelecer alianças e ocupar espaços. Mas, quando o desejo de mudança se torna suficientemente forte, nenhuma estrutura consegue substituir a vontade do eleitor.
A maior demonstração da autonomia desse eleitorado apareceu nas eleições proporcionais. Braide venceu, e seus candidatos ao Senado, Fufuca e Lahésio, também foram eleitos. Entretanto, na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados, os partidos ligados a Braide foram fragorosamente derrotados. Seu próprio irmão não se elegeu deputado Federal.
Isso demonstra que o voto em Braide não foi necessariamente um voto em seu grupo político. Foi, principalmente, um voto pessoal, conferido a ele pelo trabalho realizado e pela esperança que sua candidatura despertou. O eleitor soube distinguir os candidatos, separar as disputas e fazer escolhas diferentes para cada cargo.
Acredito que a forma como venceu a eleição, sem depender direta e decisivamente de algum grupo ou de alguém, dá a Braide aquilo que mais o caracteriza: Não depender de ninguém, ouvir apenas a sua consciência, escolher individual e pessoalmente o que fazer. Esse é seu estilo, seu modus operandi. Se der certo o mérito será dele. Tem dado muito certo.
Chego ao final deste texto com a clara impressão de que ele poderia ter outro título, acompanhado de um subtítulo: Para ganhar uma eleição, não basta ter vaqueiro. É preciso despertar no povo a vontade de mudar e a esperança de viver dias melhores… E ser Eduardo Braide.
Joaquim Haickel
5 de outubro de 2026
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Não pensem que acordei hoje mais feliz, alegre ou satisfeito do que no último sábado ou em qualquer outro dia da semana passada. Não. Continuo preocupado com tudo aquilo que já me preocupava antes, porque o fato de apenas um dos meus candidatos não ter sido bem-sucedido na eleição de domingo não garante que as coisas irão melhorar automaticamente.
Para que o Brasil melhore real e efetivamente, são necessárias mudanças profundas. Precisamos permanecer atentos e cobrar daqueles que se comprometeram com essas transformações a adoção de medidas capazes de melhorar a vida de todos nós.
Minha preocupação é com a estabilidade e a governabilidade dos estados e do país; com o respeito às instituições; e com o recuo do Poder Judiciário para os limites de sua competência, sem a indevida e criminosa invasão das áreas de atuação dos demais Poderes.
Estarei verdadeiramente feliz, alegre e satisfeito quando tivermos governos e instituições atuando de maneira efetiva, eficaz e eficiente, executando ações capazes de valorizar e melhorar, de fato, a vida de todo o povo brasileiro.
Uma eleição pode apontar uma mudança de direção, mas não garante que chegaremos ao destino desejado. Cabe a nós permanecer vigilantes e cobrar daqueles que receberam nossos votos o cumprimento das promessas e dos compromissos assumidos.
Perfil
“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.
Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.
Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.
Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.
Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.
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