O perigo da relativização da democracia e da ditadura

Um importante jornalista disse certa vez, com uma ironia tão desconcertante quanto verdadeira, que costumamos considerar democracia o regime em que o grupo político com o qual simpatizamos controla o poder, e ditadura aquele em que estão no comando os políticos pelos quais nutrimos antipatia.

Essa afirmação revela uma das maiores contradições de nossa vida política: a dificuldade que temos de aceitar que a democracia não existe apenas para garantir nossos direitos, mas também para assegurar os direitos daqueles de quem discordamos.

É curioso observar como pessoas que defendem apaixonadamente a democracia quando estão no poder passam a questioná-la quando são derrotadas. Mais curioso ainda é perceber que muitos daqueles que denunciam os abusos de seus adversários se mostram tolerantes quando os mesmos abusos são praticados por seus aliados.

O que antes era autoritarismo transforma-se em demonstração de autoridade. O que antes era perseguição política passa a ser considerado cumprimento da lei. Mudam os personagens, mudam os discursos, mas permanece a disposição de julgar os acontecimentos não pela natureza dos atos, e sim pela identidade de quem os pratica.

Essa é uma das formas mais perigosas de hipocrisia política, porque transforma princípios universais em instrumentos de conveniência.

A democracia não pode ser uma roupa que vestimos quando nos favorece e abandonamos quando deixa de nos servir. Ela exige respeito às mesmas regras, independentemente de quem esteja exercendo o poder.

A verdadeira convicção democrática não se manifesta apenas na disposição de vencer eleições, mas principalmente na capacidade de aceitar derrotas. Isso não significa aceitar passivamente os atos dos vencedores. Significa reconhecer seu direito de governar, dentro dos limites da lei, assim como nosso direito de fiscalizá-los e criticá-los.

Afinal, vencer uma eleição não significa tornar-se proprietário do poder. O poder pertence ao povo, que apenas o empresta temporariamente a seus representantes, reservando-se o direito de retomá-lo, nas eleições seguintes, caso esteja insatisfeito com aqueles que escolheu para representá-lo.

Talvez nosso maior problema seja confundir fidelidade a princípios com fidelidade a pessoas, partidos e grupos. Defendemos a liberdade de expressão até que alguém diga algo de que não gostamos. Defendemos o devido processo legal até que o acusado seja alguém que desprezamos. Defendemos a independência dos poderes até que um deles contrarie nossos interesses.

Democracia não é quando os nossos governam. Democracia é quando todos têm o direito de disputar o governo, quando os vencedores respeitam os limites do poder e quando os derrotados preservam o direito de continuar disputando-o.

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Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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