Joaquim Haickel
30 de junho de 2026
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Desculpem-me, mas estou na finalização de dois longas metragens e de uma minissérie, e não tenho tido tempo nem paz de espírito para acompanhar, como gostaria, os acontecimentos da política. Ainda assim, uma notícia me pôs o dedo na ferida. O ministro Flávio Dino, a quem sempre reputei um dos mais preparados e competentes do STF, assinou agora, juntamente com outros três pares seus, um voto que libera grande parte dos penduricalhos que o próprio Dino, na condição de relator da matéria, com aplauso meu, inclusive, havia condenado há apenas três meses. Entidades da sociedade civil chamam isso de grave recuo. Tais entidades, insuspeitas de qualquer perseguição a ele, dizem, com todas as letras, que a tese, correta, está sendo esvaziada pelas mãos de quem a escreveu.
E aqui está o que mais me incomoda, e não é o nome de ninguém, é o método. Condena-se em voz alta, diante das câmeras e dos aplausos, e libera-se em voz baixa, três meses depois, no recolhimento de um plenário virtual, na esperança de que o país guarde só a primeira cena e perca a segunda. Aposta-se na desatenção do público, na ideia de que ninguém vai conferir o antes com o depois. Pois eu conferi. E o que sobra, quando se põem as duas decisões lado a lado, não é divergência de doutrina, é a distância entre o que se diz e o que se faz.
Não me move nenhuma bandeira ideológica ou partidária, me move a coerência, e ela vale para todos, inclusive para mim, que aplaudi a primeira decisão e por isso mesmo me sinto no direito de cobrar a segunda. Faço a conta simples que qualquer cidadão pode fazer: o que foi proibido em março, e o que foi liberado em junho, pelas mesmas mãos. A diferença entre as duas colunas é o tamanho exato do que me assombra. Não a opinião de um ministro, que é livre para mudar de posição, mas a engenharia de mudar sem que pareça que mudou, sob togas que, vez por outra, servem menos de toga e mais de manto, para cobrir o que não quer ser visto.
Dou a essas três coisas o seu nome exato, sem rodeio. Condenar diante das câmeras e liberar no escuro do plenário virtual é incoerência. Fazê-lo sem o menor constrangimento, à vista de quem quiser conferir, é desfaçatez. E seguir vestindo a toga de guardião do teto enquanto se abre a porta dos fundos para o que se jurou barrar, isso, senhores, é hipocrisia. Não me assombra que um homem mude de ideia. Assombra-me que mude esperando que ninguém repare.
Joaquim Haickel
27 de junho de 2026
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Há uma diferença fundamental entre lembrar e guardar na memória, e essa diferença é, no fundo, uma questão política e filosófica das mais relevantes. A lembrança é individual, pessoal, afetiva, fragmentada e às vezes até traiçoeira. A memória é coletiva, preservada, construída, disputada e, por isso mesmo, preciosa, pois é nela que a história se sustenta.
Memória não é simplesmente lembrança. O conhecimento não pode depender apenas da percepção, porque o que percebemos é sempre parcial, tingido pelo momento, pelo humor, pelo interesse. A lembrança funciona assim, é a percepção do passado filtrada pelo presente de quem lembra. Dois homens que viveram o mesmo evento lembram coisas diferentes, e ambos juram que é verdade.
A memória, no entanto, exige um esforço diferente. Precisa ser registrada, confrontada, documentada, preservada. Não é o que se sente que aconteceu, é o que se pode provar que aconteceu. É o registro do fato, do acontecimento.
A mesma dificuldade existe entre verdade e realidade, que parecem a mesma coisa e não são. Convém aqui um acerto de palavras, porque é exatamente nele que quase todos tropeçam. Chamo de realidade aquilo que aconteceu, uma só vez, de uma só forma, e que não pede permissão nem consenso para ter acontecido. E chamo de verdade não o fato em si, mas aquilo que cada um toma e sustenta como verdadeiro, a sua versão, o que jura ter visto. Pense num crime testemunhado por dez pessoas. A realidade é uma, o que de fato se deu. As verdades são dez, e raramente coincidem.
A verdade, nesse sentido, é sempre uma construção, um arranjo de palavras e imagens que se impôs sobre outros arranjos. A que circula na sociedade costuma ser a versão que venceu, e venceu menos por ser exata do que por ter tido mais força para se contar. A realidade, ao contrário, aconteceu e basta-se. O problema é que a realidade sem registro desaparece, e em seu lugar fica o relato de quem teve mais poder para contá-la.
Poderia objetar-se que também a memória documentada é uma dessas versões, escrita igualmente por quem teve poder para escrevê-la. A objeção é justa, e não a desprezo. Mas a diferença está num único ponto, e ele é decisivo. O relato interessado recusa ser confrontado, a memória rigorosa pede o confronto. Um teme a prova, a outra a procura. O documento, o registro cruzado, o testemunho que se confere com outro testemunho não nos dão a certeza absoluta, porém nos dão aquilo que a versão solta jamais aceita oferecer, que é a possibilidade de ser corrigida. É por submeter-se à correção que a memória escapa, ao menos em parte, da pura disputa de poder.
Há, portanto, um caminho para sair dessa armadilha, e ele é trabalhoso. As coisas têm uma consistência própria, que não depende do que sentimos a respeito delas, mas a essa consistência só se chega pelo esforço paciente e ordenado da razão. Sem ele, ficamos entregues à imaginação, que é o mais baixo dos conhecimentos, justamente por misturar percepção, emoção e fragmento numa coisa só. Documentar, registrar e preservar é, nesse sentido, um ato de razão erguido contra a imaginação interessada de quem deseja reescrever o que foi.
Preservar a memória é também um ato moral. O tempo devora tudo, impérios e homens ilustres viram pó com a mesma indiferença, e isso não se diz para paralisar ninguém, mas para o contrário. Se tudo se apaga, então o que se faz agora é o que vai restar, ou não restará nada, conforme o cuidado com que for tratado. O registro é a única forma de roubar alguma coisa a esse esquecimento.
E há uma dimensão que ultrapassa a história. Se toda pessoa tem uma dignidade que lhe é própria, então toda vida vivida tem direito ao testemunho. Apagar a memória de um povo, de uma cultura, de uma época, é uma violação ética antes de ser uma perda historiográfica. Foi exatamente isso o que aconteceu no Egito antigo, quando sucessores mandaram raspar dos monumentos o nome e a imagem de um faraó incômodo, como no caso de Akhenaton depois de morto, ou com Hatshepsut, cuja memória Tutmés III perseguiu na pedra. Não queriam apenas vencê-los, queriam que jamais tivessem existido, matá-los uma segunda vez, e para sempre, pela supressão da lembrança que deles restava.
A memória é, ainda, a condição de toda aprendizagem. Sem ela cada geração recomeça do zero, comete os mesmos erros, repete as mesmas tragédias. Preservá-la não é saudosismo, é inteligência coletiva aplicada à vida, o modo como um povo aprende a não tropeçar duas vezes na mesma pedra.
A lembrança se distorce, envelhece e morre com quem a carrega. A memória, quando guardada com rigor e honestidade, é o único antídoto que temos contra a mentira organizada. Num tempo em que a desinformação e a fabricação deliberada de narrativas se tornaram estratégias de poder, preservar a memória é um ato de resistência. Não porque o passado seja melhor que o presente, mas porque sem ele o presente não tem chão, e o futuro não tem bússola.
Joaquim Haickel
23 de junho de 2026
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Yitzhak Rabin foi soldado a vida inteira antes de ser estadista. Saiu do Palmach ainda jovem, comandou na guerra da criação de Israel, em 1948, e foi o chefe do Estado-Maior que conduziu o exército à vitória-relâmpago na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Homem taciturno, sem o dom para a bajulação, feito todo de dever. E foi esse general, que conhecia a guerra por dentro, quem teve a coragem de apertar a mão de um duro inimigo, Arafat, no gramado da Casa Branca, em 1993, e assinar o acordo de Oslo, pelo qual mereceu o Nobel da Paz. Pagou por ela o preço máximo: em novembro de 1995, num comício que comemorava exatamente a paz, em Tel Aviv, um fanático, judeu radical, o matou. Morreu pela coisa à qual dedicou a vida e entrou triunfante na história.
Benjamin Netanyahu não é homem sem feitos, e sou justo: serviu numa tropa de elite, foi ferido em combate e perdeu o irmão Yonatan, herói tombado no resgate de Entebbe. Mas reparem no que se converteu. Fez-se o mais longevo primeiro-ministro do país, e essa permanência é a sua obra-prima: a arte de durar, de costurar coalizões, de responder às acusações nos tribunais sem soltar o poder, de partir ao meio o próprio povo. E foi sob a sua guarda, a do homem que se vendeu como senhor da segurança, que veio o 7 de outubro de 2023, a maior falha de defesa da história de Israel.
Um general deu a vida para encerrar uma guerra. O outro consome um país para prolongar a si mesmo.
Passo aos Estados Unidos, e a medida não muda.
John Kennedy comandou uma lancha-torpedeira no Pacífico, e quando um destroier japonês a partiu ao meio, salvou a tripulação, rebocando um ferido pela alça do colete presa entre os dentes, a nado, por horas. Voltou herói, escreveu sobre a coragem um livro que lhe valeu o Pulitzer, e chegou à Presidência para pedir aos seus compatriotas, na posse, que não perguntassem o que a pátria podia fazer por eles, mas o que eles podiam fazer por ela. Fundou os Corpos da Paz. Diante dos generais que exigiam bombardear Cuba, segurou o dedo no gatilho e achou, na crise dos mísseis, o caminho estreito que poupou o mundo do fogo atômico. Prometeu à nação um homem na Lua antes do fim da década, sonho impossível, e a nação o cumpriu depois que ele já tombara em Dallas. Tudo isso em menos de três anos.
Trump tampouco é um nada, e reconheço: venceu duas eleições e ergueu um movimento que sacudiu o seu país e o mundo. Só que o que oferece é de outra estofa. É o construtor falido virado celebridade de televisão, a frase de efeito, o ressentimento alçado a programa de governo, a política rebaixada a espetáculo e a postagem. Kennedy convocava um povo ao sacrifício e às estrelas. Trump convoca uma plateia ao aplauso, e é ele, no fim, quem pergunta o que a pátria pode fazer por ele mesmo.
Vou agora ao esporte, para que ninguém diga que falo só de política.
Vi Ayrton Senna correr, e digo sem receio de exagero que vi um homem possuído. Foram pouco mais de dez temporadas, de 1984 a 1994, em máquinas que matavam de verdade, com quase nenhuma proteção, sem a extrema segurança de hoje. Três títulos, e uma genialidade na chuva que beirava o sobrenatural: a estreia em Mônaco, em 1984, num carro fraco, devorando os outros sob o aguaceiro; a primeira volta de Donington, em 1993, em que passou meio grid numa só tacada. Era feroz, não era santo, e o confesso: tirou Prost da pista em Suzuka para cravar um título. Mas foi o mesmo homem que, em Spa, parou o próprio carro, cruzou a pista a pé, sob o risco de morrer atropelado, para socorrer um rival caído e desligar-lhe o motor com as mãos. Doava fortunas às crianças do Brasil em sigilo, e só soubemos depois de morto. Falava de Deus dentro do cockpit. Tombou em Ímola, em 1994, no fim de semana em que outro piloto já havia ido, e levava no carro uma bandeira para homenageá-lo. Três milhões foram chorar a sua perda, e eu fui um deles.
Lewis Hamilton tem sete títulos, mais vitórias e mais poles que qualquer um, e foi, nos números, soberano. Sou justo outra vez: correu quase o dobro das temporadas de Senna, no carro mais dominante e mais seguro que este esporte já viu, numa era em que ninguém mais morre; e teve o mérito raro de abrir, sendo o único negro do grid, uma porta que estava lacrada, e de levantar causas verdadeiras contra o racismo. Mas a sua nobreza é a do nosso tempo: a virtude que se anuncia, o gesto que vira manchete e contrato. A de Senna se pagava com a pele e com o silêncio. Um ergueu a bandeira de um morto e arriscou a vida por um adversário. O outro, num mundo sem perigo, publica o bem que pratica.
E fecho com a bola, que é a nossa paixão e a nossa régua.
Pelé saiu de engraxate, em Três Corações, e fez-se Rei. Ganhou a primeira Copa em 1958, aos dezessete anos, marcando duas vezes na final; ganhou a de 1962; e consagrou-se na de 1970, no melhor time que já existiu, com aqueles lances que ninguém apaga, a finta sem tocar na bola, o passe para o gol de Carlos Alberto. Passou dos mil gols. E fez tudo isso com uma pelota de couro que, quando encharcava, pesava como pedra, em campos barrentos, apanhando de zagueiros com licença para matá-lo, tanto que o chutaram para fora da Copa de 1966. Encerrada a carreira, foi embaixador do mundo por meio século, com uma dignidade sem nódoa ou vulgaridade.
Neymar tem um dom que não nego, e é vasto; chegou a superar Pelé em gols pela seleção. Superou, contudo, noutro tempo: com jogos em excesso, amistosos de sobra, pênaltis fartos, gramados de veludo e regras que proíbem encostar nele. Concedo o talento e nego a grandeza. Levantou uma Liga dos Campeões, é verdade, mas a Copa que devia coroá-lo jamais veio, e a de casa, em 2014, ele assistiu quebrado, antes da vergonha do sete a um. Rolou pelo chão diante do planeta a ponto de virar chacota; mudou de país atrás de dinheiro até o deserto; fez da própria carreira uma vitrine de marca. Pelé carregou uma nação nas costas e virou mito. Neymar carrega um patrocínio no peito e é celebridade. A mesma matéria-prima nos pés, a estatura oposta na alma!…
É a mesma régua nos quatro casos, e ela não falha. Deixem aos modernos os números, os troféus, as voltas mais rápidas e os seguidores. Fico eu com a estatura e com o caráter: o general que morreu pela paz, o presidente que convocou ao sacrifício, o piloto que arriscou a vida por um rival, o rei que carregou um povo. Não é saudosismo de um velho. É valorizar a alma das coisas, a nobreza e a honra que há nelas.
Joaquim Haickel
9 de junho de 2026
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Vocês não podem imaginar a quantidade de pessoas que me procuram para saber alguma informação sobre o que poderá acontecer nas eleições deste ano, aqui em nosso Estado. São pessoas das mais diversas procedências, inclusive jornalistas bem informados e políticos de elevadas patentes.
Eu me reservo o direito de não opinar muito no que concerne à eleição de governador, por ser amigo pessoal dos candidatos com real chance de vencer a eleição, além de ser amigo dos pais deles. De um, amigo de infância, de colégio, e do outro amigo de plenário da Assembleia Legislativa, amizade herdada de meu pai, que praticamente faleceu em seus braços.
Sobre a eleição de governador, só direi que ela será muito apertada. Um dos candidatos tem o respaldo das ações e entregas do governo do Estado somadas às do governo federal. O outro tem a seu favor toda a vontade de mudança que sempre foi muito forte e presente em nosso Estado, e que nesta eleição está particularmente latente, além do excelente trabalho que realizou na gestão da prefeitura de nossa capital. O resultado é incerto e vai depender mais dos erros que dos acertos possam ser cometidos por eles.
Quanto às eleições legislativas, para a Assembleia estadual e para a Câmara Federal, penso que ocorrerão com certa facilidade e dentro da mais elementar previsibilidade. Aqueles que já têm mandato, têm preferência. Em seguida, os que têm redutos fortes e garantidos. Depois, os que têm recursos financeiros para investir nessas jornadas. Só precisam fazer contas se o esforço vale a pena, e se a Justiça Eleitoral não vai pegá-los mais adiante.
A verdadeira disputa nesta eleição é a do Senado. Estão em jogo duas vagas e, na atual situação, onde os dois principais candidatos a governador estão engalfinhados na disputa de cada voto, acredito que nenhum deles vai quebrar lança, vai se empenhar a ferro e fogo, pedindo votos para os senadores que compõem sua chapa. Penso que eles irão deixar a eleição de senador correr solta. Quem for poder, que se quebre. Quem não tiver voto, que se lasque. Quem tiver, que faça seu gasto para arrebanhar seus votos.
Penso que nunca antes na história do nosso Estado houve tantos candidatos num só pleito. Os atuais, Weverton Rocha e Eliziane Gama. Os deputados federais Roseana Sarney, André Fufuca, Pedro Lucas e Duarte Junior. O ex-senador Roberto Rocha. Os ex-prefeitos Lahésio Bomfim e Hilton Gonçalo, isso sem contar com os candidatos de partidos de extrema esquerda. Acredito que serão uns vinte candidatos disputando duas vagas, o que tornará a disputa bastante concorrida e interessante.
Levarão vantagem os candidatos mais conhecidos, os que tenham mais penetração em mais regiões e em mais municípios, que tenham uma maior rede pessoal de apoio, os que tenham mais votos em redutos maiores, os que tenham mais apoios de seus partidos através do fundo partidário.
Acredito que, se a eleição transcorrer como eu penso que irá, os candidatos com mais chances de se eleger são Roseana e Fufuca, que disputarão com Lahésio e Weverton. Isso sem menosprezar as chances de Roberto Rocha e Pedro Lucas, que até podem surpreender.
Imagino que a disputa ao governo será tão acirrada que os candidatos vão lutar palmo a palmo por seus votos, deixando os candidatos ao Senado à própria sorte.
É aqui que eu vejo a maior vantagem de Roseana. Conhecida em todo o Estado. Bem-quista e aceita por uma grande parcela dos políticos e da população. Simpática, carismática, lutadora, vencedora de quatro eleições para o governo. Com um grupo fiel que, apesar de hoje reduzido, é composto pelos melhores quadros do Estado. Da mesma forma vejo a situação de Fufuca, só que pelo fato de ser jovem e com imenso e promissor futuro pela frente.
Se fosse apostar, apostaria nos dois e acredito que ganharia a aposta.
Uma coisa é certa, nessa eleição, a disputa pelas vagas do Senado será a mais eletrizante de todos os tempos em nosso Estado.
Joaquim Haickel
6 de junho de 2026
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Estive demoradamente pensando sobre tudo aquilo que sentimos. Sobre a alegria de um amanhecer ensolarado, sobre respirarmos um ar puro, com o cheiro perfumado do orvalho da madrugada que acabou de evaporar.
Pensei sobre o amor que sinto por minha filha, por meu irmão e por minha esposa. Sem esse sentimento, eu seria éter. Pensei em um sentimento ruim, mas capaz de mover grandes obstáculos. Senti medo de perdê-los. Fiquei triste e pensei na tristeza que sinto por não ter mais comigo pessoas amadas: minha mãe, meu pai, alguns amigos, mortos e vivos.
Consequentemente, pensei na raiva que a perda e a distância podem nos causar, e isso fez com que sentisse culpa e vergonha por aquele sentimento. Imediatamente tive esperança e fé de não ceder à raiva e transformá-la em compreensão sobre os acontecimentos da vida, suas causas e consequências.
Imediatamente observei que existe uma outra categoria de “sentimentos” que não são coisas que simplesmente sentimos. São mais que isso. São atitudes que, quando as temos, dão a nós mesmos ou a outras pessoas sensações de sentimentos que podem ser bons ou ruins.
E pensei sobre a preocupação com os compromissos agendados e com a responsabilidade decorrente dos negócios firmados e apalavrados.
Parei no semáforo e se aproximou aquele senhor, com problema de locomoção (nem sei se é assim que se fala hoje em dia), e tive compaixão e empatia para com ele e comprei uma caneta para ajudar a ele (e a mim). Me senti generoso e orgulhoso e pensei só comigo se ele havia sentido minha compaixão, minha empatia, e se poderia imaginar que aquela minha atitude era generosidade ou apenas uma coisa circunstancial.
Por um instante, lembrei de um texto em que se comparava a lealdade e a fidelidade, mostrando aspectos de cada uma delas. Fidelidade é um sentimento animal; lealdade é algo menos orgânico, quase transcendental.
Fui tolerante comigo mesmo e não me deixei envolver pelos pecados capitais, todos eles figurantes nesta categoria de sentimentos-atitudes.
Da tolerância para o perdão é um pulinho, e me perdoei pela gula e pela luxúria; mas a ira e a inveja, se as sentisse, seriam imperdoáveis.
Lembrei que gentileza gera gentileza e que com a simpatia deve funcionar da mesma forma.
Tive confiança de estar pensando da maneira mais correta e coerente e resolvi perdoar a quem possa me ter ofendido, para jamais faltar com o respeito a qualquer pessoa.
Sobre respeito há um detalhe curioso. Essa é uma palavra-sentimento-atitude muito esquisita, pois seu efeito se faz sentir mais na ausência, em quem não se sente respeitado.
Respeito é um sentimento, desses de lugar de fala, expressão com a qual eu particularmente implico.
Perfil
“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.
Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.
Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.
Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.
Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.
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