Memória, lembrança, verdade e realidade

Há uma diferença fundamental entre lembrar e guardar na memória, e essa diferença é, no fundo, uma questão política e filosófica das mais relevantes. A lembrança é individual, pessoal, afetiva, fragmentada e às vezes até traiçoeira. A memória é coletiva, preservada, construída, disputada e, por isso mesmo, preciosa, pois é nela que a história se sustenta.

Memória não é simplesmente lembrança. O conhecimento não pode depender apenas da percepção, porque o que percebemos é sempre parcial, tingido pelo momento, pelo humor, pelo interesse. A lembrança funciona assim, é a percepção do passado filtrada pelo presente de quem lembra. Dois homens que viveram o mesmo evento lembram coisas diferentes, e ambos juram que é verdade.

A memória, no entanto, exige um esforço diferente. Precisa ser registrada, confrontada, documentada, preservada. Não é o que se sente que aconteceu, é o que se pode provar que aconteceu. É o registro do fato, do acontecimento.

A mesma dificuldade existe entre verdade e realidade, que parecem a mesma coisa e não são. Convém aqui um acerto de palavras, porque é exatamente nele que quase todos tropeçam. Chamo de realidade aquilo que aconteceu, uma só vez, de uma só forma, e que não pede permissão nem consenso para ter acontecido. E chamo de verdade não o fato em si, mas aquilo que cada um toma e sustenta como verdadeiro, a sua versão, o que jura ter visto. Pense num crime testemunhado por dez pessoas. A realidade é uma, o que de fato se deu. As verdades são dez, e raramente coincidem.

A verdade, nesse sentido, é sempre uma construção, um arranjo de palavras e imagens que se impôs sobre outros arranjos. A que circula na sociedade costuma ser a versão que venceu, e venceu menos por ser exata do que por ter tido mais força para se contar. A realidade, ao contrário, aconteceu e basta-se. O problema é que a realidade sem registro desaparece, e em seu lugar fica o relato de quem teve mais poder para contá-la.

Poderia objetar-se que também a memória documentada é uma dessas versões, escrita igualmente por quem teve poder para escrevê-la. A objeção é justa, e não a desprezo. Mas a diferença está num único ponto, e ele é decisivo. O relato interessado recusa ser confrontado, a memória rigorosa pede o confronto. Um teme a prova, a outra a procura. O documento, o registro cruzado, o testemunho que se confere com outro testemunho não nos dão a certeza absoluta, porém nos dão aquilo que a versão solta jamais aceita oferecer, que é a possibilidade de ser corrigida. É por submeter-se à correção que a memória escapa, ao menos em parte, da pura disputa de poder.

Há, portanto, um caminho para sair dessa armadilha, e ele é trabalhoso. As coisas têm uma consistência própria, que não depende do que sentimos a respeito delas, mas a essa consistência só se chega pelo esforço paciente e ordenado da razão. Sem ele, ficamos entregues à imaginação, que é o mais baixo dos conhecimentos, justamente por misturar percepção, emoção e fragmento numa coisa só. Documentar, registrar e preservar é, nesse sentido, um ato de razão erguido contra a imaginação interessada de quem deseja reescrever o que foi.

Preservar a memória é também um ato moral. O tempo devora tudo, impérios e homens ilustres viram pó com a mesma indiferença, e isso não se diz para paralisar ninguém, mas para o contrário. Se tudo se apaga, então o que se faz agora é o que vai restar, ou não restará nada, conforme o cuidado com que for tratado. O registro é a única forma de roubar alguma coisa a esse esquecimento.

E há uma dimensão que ultrapassa a história. Se toda pessoa tem uma dignidade que lhe é própria, então toda vida vivida tem direito ao testemunho. Apagar a memória de um povo, de uma cultura, de uma época, é uma violação ética antes de ser uma perda historiográfica. Foi exatamente isso o que aconteceu no Egito antigo, quando sucessores mandaram raspar dos monumentos o nome e a imagem de um faraó incômodo, como no caso de Akhenaton depois de morto, ou com Hatshepsut, cuja memória Tutmés III perseguiu na pedra. Não queriam apenas vencê-los, queriam que jamais tivessem existido, matá-los uma segunda vez, e para sempre, pela supressão da lembrança que deles restava.

A memória é, ainda, a condição de toda aprendizagem. Sem ela cada geração recomeça do zero, comete os mesmos erros, repete as mesmas tragédias. Preservá-la não é saudosismo, é inteligência coletiva aplicada à vida, o modo como um povo aprende a não tropeçar duas vezes na mesma pedra.

A lembrança se distorce, envelhece e morre com quem a carrega. A memória, quando guardada com rigor e honestidade, é o único antídoto que temos contra a mentira organizada. Num tempo em que a desinformação e a fabricação deliberada de narrativas se tornaram estratégias de poder, preservar a memória é um ato de resistência. Não porque o passado seja melhor que o presente, mas porque sem ele o presente não tem chão, e o futuro não tem bússola.

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Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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