O Espelho das Perguntas

Há algo em que tenho pensado sistematicamente nos últimos tempos: a diferença entre verdade e realidade. Realidade é aquilo que existe independentemente de nós. Verdade é o filtro pelo qual processamos a realidade, a narrativa que construímos para dar sentido ao que vemos. Na maioria das vezes, o que vivemos na prática não é a realidade em si, mas a verdade que fabricamos sobre ela. E, como toda fabricação, ela pode ser honesta ou distorcida, lúcida ou conveniente.

Por isso resolvi me fazer algumas perguntas. Não para encontrar respostas definitivas, mas para aferir a confiabilidade do meu próprio olhar sobre minha própria prática de vida. Porque o homem que não se questiona não cresce, apenas envelhece.

A primeira pergunta é sobre mim: estou sendo honesto comigo mesmo? Não com os outros, não com a torcida, não com o lado que escolhi. Comigo. Porque é fácil enxergar a hipocrisia das outras pessoas; o difícil é enxergar a nossa própria. E, se não consigo fazer isso, tudo o que penso sobre o mundo é, no mínimo, suspeito.

A segunda pergunta é sobre o Brasil: o país em que vivo e que tanto amo está bem? Acredito que qualquer pessoa que se faça essa pergunta honestamente responderá que não. O Brasil passa por um de seus momentos mais delicados e tristes. Há uma desarmonia completa entre os poderes institucionais, fato que não é acidente, coincidência nem mero acaso. É a consequência da ação de homens e mulheres que, ao chegarem ao poder, esquecem que ele não lhes pertence. Pertence ao povo. Pertence à Constituição. Pertence à história, que ainda vai julgá-los, e, mais cedo ou mais tarde, condená-los. Mas, até lá, para muita gente e de muitas maneiras, já será tarde demais.

Fui constituinte. Ajudei a construir nossa Carta Magna de 1988 com a consciência de quem sabe o que custa uma democracia. Sei o que está escrito nela. Sei qual foi a nossa intenção ao construí-la. Sei também o que estão fazendo com ela. E o que está sendo feito é um desrespeito abjeto, vindo de todos os lados, com requintes de cinismo, má-fé e desfaçatez que deveriam envergonhar qualquer pessoa que tenha jurado respeitar a lei.

A terceira pergunta é sobre a polarização: estamos discutindo ideias ou estamos apenas nos odiando? A resposta, infelizmente, recai sobre a segunda opção. A polarização que assola o Brasil não é um debate saudável entre visões diferentes de mundo. É uma guerra de paixões em que a razão foi a primeira baixa. Não há mais adversários políticos: há inimigos. E, quando uma sociedade só consegue enxergar inimigos, ela para de construir e começa a destruir.

Sou de direita. No começo da minha vida, achava que não era, porque me identificava com muitas pautas da esquerda. Depois descobri que nada impede que alguém conservador simpatize com ideias progressistas. Os rótulos nem sempre traduzem o que realmente significam. Hoje sei que sempre fui de direita, mas nunca fui fanático. Não sou subserviente a nenhum líder. Não confundo ideologia com idolatria. Abomino a hipocrisia, a arrogância, o abuso de poder e a burrice que decorre dessas coisas, venham elas de onde e de quem vierem. E, nos últimos anos, essas quatro pragas têm se manifestado com uma generosidade que não escolhe ideologia nem partido.

A quarta pergunta é sobre o mundo: o que está acontecendo lá fora nos diz algo sobre o que está acontecendo aqui? Sim. O mundo dá sinais claros de desorientação. Faltam líderes. Pessoas que constroem algo maior do que eles próprios, que pensam nas gerações seguintes, que têm a coragem de dizer o impopular quando é necessário. O que sobra são gestores de momento, catadores de aplausos, vendedores de medo e de raiva. E medo e raiva vendem muito bem num mundo em que a informação virou arma e a mentira virou estratégia.

A quinta pergunta é a mais incômoda: e eu, o que faço com tudo isso? Reclamo nas redes sociais e durmo tranquilo? Ou entendo que cidadania não é torcida, que democracia não se defende apenas nas urnas e que a Constituição que ajudei a escrever merece muito mais do que lamentos?

Importa ressaltar: a confiabilidade da minha percepção não se mede pela sofisticação das perguntas que faço. Mede-se pela honestidade com que escuto minhas próprias respostas, e pela coragem de agir sobre elas.

Porque, no fim, o que sou e o Brasil que tenho são reflexo da pessoa que sou e do que faço pelo meu país. E, se não gosto do reflexo que vejo, a pergunta não é o que os outros precisam fazer.

A pergunta é o que eu estou disposto a fazer de diferente para que as coisas mudem para melhor.

A primeira crítica sobre 2 Graus ao Sul do Equador

Vejam a mensagem que recebi ontem:

Sobre “2 Graus a Sul do Equador”

Por José Eduardo Eufrázio do Nascimento

Crítica completa por José Eduardo Eufrazio do Nascimento no site @ocinemae_!

https://ocinemae.com.br/critica_de_filme/dois-graus-a-sul-do-equador-festival-de-cannes

Eu me chamo José Eduardo Eufrázio do Nascimento, tenho 19 anos e sou apaixonado por cinema.  Sou estudante do curso Técnico Integrado em Informática do IFPE, e estou quebrando barreiras geográficas e sociais, entre pernambucano e o mundo, através da sétima arte, pois fui credenciado para cobrir o Festival de Cannes, um dos eventos mais prestigiados do cinema mundial.

Bolsista do projeto de extensão Cine IF, frequento as cabines de imprensa de gigantes como Universal, Warner e Sony. Minhas críticas, publicadas em portais como O Cinema É e Peliplat, garantiram-me o acesso antecipado a grandes lançamentos mundiais.

No último dia 13 de maio, assisti no espaço Marché du Film ao longa-metragem “2 Graus a Sul do Equador”, roteirizado e produzido por Joaquim Haickel e dirigido por ele e seu parceiro de aventuras cinematográficas, Coi Belluzzo.

A obra conta a história de Eulália, uma jovem que, após perder sua mãe, parte para o Maranhão em busca de seu verdadeiro pai. Nessa jornada, Eulália será seduzida pela vibrante cultura de São Luís: o Tambor de Crioula, o Bumba Meu Boi, o Reggae, o casario colonial da Cidade dos Azulejos e os deslumbrantes Lençóis Maranhenses. Com isso, Eulália mergulha em um caminho de pertencimento e identidade.

Devo dizer que esse filme me surpreendeu pela audácia de, a seu modo, com pouquíssimos recursos financeiros e fora do eixo das grandes produções cinematográficas brasileiras, tentar realizar uma obra que remete a filmes que usam a cidade, o lugar onde são realizados, como personagens ativos da história — como “Manhattan”, “Vicky Cristina Barcelona” e “Meia-Noite em Paris”.

A curiosidade do título se justifica exatamente porque a cidade de São Luís se encontra a aproximadamente 2 graus ao sul da linha do Equador, o que prova que o intuito aqui é mostrar São Luís para o resto do mundo: sua cultura pulsa a todo momento na tela.

É interessante como o roteiro e a direção deste filme trazem São Luís para o centro da trama, fazendo aquilo que recorrentemente Kleber Mendonça Filho faz em seus filmes com sua amada cidade do Recife. A diferença é que o filme de Haickel e Belluzzo nada tem de político no sentido ideológico, filosófico e partidário. O político em “2 Graus” é totalmente aristotélico — remete à pólis, ao lugar onde vivem as pessoas, onde elas vivenciam suas experiências.

Confesso que experimentei uma espécie de catarse ao assistir a esse filme, algo que me fazia sentir dentro daquela história, acompanhando aqueles personagens, principalmente pela forma como o roteiro os apresenta.

Não satisfeitos em beberem da fonte de Woody Allen, os idealizadores de “2 Graus a Sul do Equador” resolveram que deveriam se refrescar também na fonte de um dos pais da Nouvelle Vague, François Truffaut, pois apresentam seu filme em narrativa de metalinguagem, na qual a história de Eulália é contada durante a realização de um filme que pretende resgatar uma diretora e sua parceira produtora de uma crise criativa — um bloqueio produtivo, coisa muito comum no setor.

Quando digo que essa produção se refresca em correntes de sucesso do cinema mundial, não o faço para diminuir a obra, pois a intenção dos realizadores me parece clara e explícita. Tanto que, em determinado momento, o roteirista coloca na boca de um personagem uma alusão direta a Truffaut — que imagino se refira ao maravilhoso “A Noite Americana” —, fato que me deu a certeza de que eles sabiam claramente o que desejavam.

A metalinguagem aqui se desvincula do clichê ao filmar um filme dentro de outro filme, onde podemos ver pontos de vista distintos em seus respectivos personagens, trazendo histórias reais — como a citação a um poeta famoso na cidade — e debates como o da maternidade na adolescência, entre muitos outros.

O elenco é um show à parte. Todos os atores e atrizes são maranhenses. A performance de Tamie Panet é o coração da obra: singela e sutil, ela (assim como outros) vive dois personagens distintos e nos faz viajar junto com cada um deles quando assume suas personalidades. Zanto Holanda, Daniel Haidar, Claudiana Cotrim e Tassia Duh completam o elenco principal, e contam ainda com o apoio de mais de duas dezenas de atores e atrizes da melhor qualidade.

Por fim, penso que “2 Graus a Sul do Equador” também se destaca por seu roteiro, que parece ter sido pensado milimetricamente, por sua direção, que soube dar asas libertadoras ao elenco, e pela forma como a montagem conta a história.

Depois de assistir ao filme, tive a oportunidade de conversar com Joaquim Haickel, idealizador da obra, roteirista, produtor e diretor de cinema que desde 1984 produz filmes no Maranhão, a maioria documentários voltados à preservação da memória de sua terra e de seu povo. Conversar com Joaquim me fez ter certeza sobre a verdade contida em uma frase que tenho como mantra: “um filme nunca é só um filme, é uma janela para o mundo”.

Crítica completa por José Eduardo Eufrazio do Nascimento no site @ocinemae_!

https://ocinemae.com.br/critica_de_filme/dois-graus-a-sul-do-equador-festival-de-cannes

Não é um filme baseado em Jane Austen, mas foi Desconfiança e Encantamento

Quem me conhece sabe o quanto eu gosto de assistir a filmes, e as pessoas mais íntimas sabem que não há um dia em minha vida que eu não assista pelo menos um.

Minha esposa, Jacira, é também apaixonada por filmes, mas normalmente os títulos escolhidos por ela acabam não sendo dos melhores, com algumas exceções, entre elas uma que superou totalmente as minhas expectativas.

Costumo dizer a ela que pelo título, o gênero, a nacionalidade, o diretor e o elenco, é possível saber se um filme é bom, regular ou ruim, e a prática de 60 anos de dedicação e paixão ao cinema me garantem um nível de acerto bem elevado.

Mas Jacira, que gosta de filmes de suspense, eu menos, de filmes muito densos e profundos, eu que sou claustrofóbico, fez uma escolha curiosa, que acabou por me surpreender.

“Meu Nome é Agneta” é uma produção sueca, dirigida por uma mulher, Johanna Runevad, que é curiosamente 14 dias mais nova que minha filha Laila.

Comecei a assistir ao filme, mesmo desconfiando da escolha de Jacira, mas algumas coisas me chamaram a atenção, como a abordagem inicial, o fato do letreiro só aparecer depois da introdução da história, o fato de ser sueco, adaptado de um livro de sucesso, roteirizado e dirigido por uma mulher jovem e com experiência anterior em séries para televisão. Aquilo tudo me deixou curioso.

O livro de Emma Hamberg, publicado em 2021, cujo título original é “Jag heter Agneta”, é a fonte onde Johanna Runevad foi beber e se refrescar, criando uma obra que, se dependesse de mim, estaria no mínimo indicada a prêmios nos mais importantes festivais de cinema do mundo.

“Meu Nome é Agneta” acompanha a personagem título, uma mulher de 49 anos que, após perder o emprego e se sentir invisível dentro do próprio casamento e da própria vida, decide aceitar uma vaga de au pair numa cidadezinha no sul da França. Lá ela descobre que a pessoa de quem deve cuidar não é o menino sueco que esperava, mas Einar, um senhor idoso, excêntrico e resistente, interpretado por Claes Månsson. A relação improvável entre os dois, construída em atritos, humor e pequenos gestos cotidianos, transforma ambos de formas que nenhum dos dois previa.

O filme é protagonizado por Eva Melander, atriz premiada pelo filme Border, e tem como cenário central a paisagem luminosa e sensorial da Provença, usada como contraponto à frieza emocional e climática da vida sueca de Agneta. É uma comédia dramática sobre invisibilidade, identidade, recomeço e a coragem de existir para si mesma numa fase da vida que o mundo costuma ignorar.

No meio do filme me lembrei de outro que assisti nos anos 90, “A Excêntrica Família de Antônia”, da diretora holandesa Marleen Gorris. Os dois filmes têm em comum o fato de serem europeus, dirigidos por mulheres, centrados em personagens femininas que recusam a invisibilidade que o mundo lhes impõe. Nos dois há personagens excêntricos que desafiam a ordem estabelecida e provocam transformações nos que estão ao redor. O fio invisível que conecta os dois é o mesmo: a recusa em desaparecer.

Esse filme me fez observar algumas coisas: Jacira nem sempre escolhe filmes que não me agradam; países incomuns produzem filmes improváveis e causam em mim reações inesperadas; e acreditar que o cinema tem um caráter sempre ideológico, do ponto de vista político, está limitando demais o cinema brasileiro, impedindo que existam em nosso país produções como essa, capazes de sensibilizar universalmente todos que as assistirem, que não estejam acima de tudo querendo autoritariamente doutrinar o espectador, mas que abram os seus olhos e possibilitem que ele veja, com graça, alegria e inteligência, opiniões, ideias e mundos diferentes.

RC: Essencial

Imagine que alguém lhe diga: “Eu preciso de você. Você em minha vida foi uma felicidade que aconteceu. Como é grande o meu amor por você! Quando eu estou aqui eu vivo esse momento lindo, e o que eu sinto por você não sei explicar, só sei que quero que você me aqueça neste inverno, e que tudo mais vá para o inferno. Eu te proponho nós nos amarmos, nos entregarmos, porque de que vale tudo isso se você não está aqui, eu não posso mais viver assim ao seu lado e ao mesmo tempo sem você, mas ficam esses detalhes tão pequenos de nós dois, coisas muito grandes pra esquecer, e se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi. Mas sabe, além do horizonte deve ter algum lugar bonito pra viver em paz, e talvez seja lá, ou talvez seja aqui mesmo, onde a gente possa simplesmente se amar, na beira do mar ou em qualquer lugar, e no fim das contas é simples assim, metade de mim é você, e a outra metade também. Vou cavalgar por toda a noite, usar meus beijos como açoite, e minha mão mais atrevida, vou me agarrar aos seus cabelos, pra não cair do seu galope…”

Imagine se você recebesse uma carta assim!?… Provavelmente pensaria estar diante de alguém tomado por uma coragem rara, dessas que já não se encontram com facilidade num tempo em que as pessoas têm medo até de nomear o que sentem. Poderia achar exagerado, talvez até ingênuo, mas dificilmente negaria a força de quem se dispõe a dizer o essencial sem disfarces, sem ironias, sem a proteção confortável do cinismo.

Pois é. Existe um sujeito que diz essas coisas há mais tempo do que eu tenho de vida: Roberto Carlos.

Talvez seja exatamente aí que esteja o fenômeno que muitos insistem em não compreender. Não se trata apenas de sucesso, longevidade ou repetição. Trata-se de algo mais raro e mais difícil, a capacidade de traduzir sentimentos complexos em linguagem simples sem empobrecê-los. Num mundo que valoriza cada vez mais a esperteza, a ambiguidade e a aparente sofisticação, Roberto fez o caminho inverso. Escolhe a clareza. Escolhe dizer “eu te amo” sem pedir desculpas por isso.

Há um risco permanente de se confundir aparência com essência, e no campo das emoções esse risco parece ainda mais pertinente. Há uma tendência contemporânea de tratar a simplicidade como superficialidade, quando muitas vezes ela é, na verdade, o resultado de um longo processo de depuração. Dizer o que sente com precisão e sem adornos é, no fundo, um exercício prático de verdade, e a verdade raramente se apresenta de forma confortável.

Roberto Carlos, gostem ou não, construiu sua obra exatamente nesse território. Ele não disputa com o hermetismo. Usa a metáfora como arma poderosa, mas não a usa em excesso nem em vão. Com ela transforma imagens de amor em quadros maravilhosos e traduz enigmas que a razão não alcança. Ele expõe, repete, afirma algo que o mundo parece determinado a esquecer.

Fui no sábado, 9 de maio, assistir Roberto em uma nova e maravilhosa casa de shows, o São Luís Hall. E aqui preciso abrir um parêntese. O local é fantástico. Ali nossa cidade poderá receber os maiores e melhores shows do Brasil e do mundo. De parabéns os empreendedores daquele projeto.

Mas como dizia, ali, diante de uma plateia que cantava cada palavra como se estivesse recuperando partes de sua própria história, ficou evidente que não se trata apenas de um cantor, mas de um depositário de memórias afetivas coletivas. Cada verso, por mais simples que pareça, funciona como um gatilho de lembranças, de histórias pessoais, de amores vividos e, muitas vezes, perdidos.

A memória é condição da aprendizagem e também condição da sensibilidade. Sem memória afetiva, o amor se torna raso, episódico, descartável. Roberto, ao repetir suas canções ao longo de décadas, não está apenas cantando. Está preservando um modo de sentir que resiste ao tempo.

Tudo passa. O tempo devora homens e histórias com a mesma indiferença. Talvez por isso mesmo seja tão significativo ver um artista que, ao invés de se render à efemeridade, insiste em afirmar sentimentos duradouros, permanentes, quase fora de moda.

E no fim, a impressão que fica é simples e ao mesmo tempo desconcertante: talvez o que chamamos de romantismo não seja um excesso, mas uma escassez. Talvez o que pareça exagero seja apenas falta de hábito. Talvez tenhamos nos desacostumado a ouvir, e mais ainda a dizer, aquilo que realmente importa.

O peso da leveza

Uma pessoa sentia-se energeticamente enfraquecida, cansada, bocejava o tempo inteiro, mesmo sem sentir sono. Apresentava sintomas daquilo que comumente se chama de mau-olhado ou olho gordo.

Alguns amigos indicaram medidas no sentido de estancar a perda de energia e sanar o problema: um banho com sal grosso, do pescoço para baixo, acender uma vela para São Miguel Arcanjo, o guerreiro de Deus, e um banho com ervas, plantas e pétalas de rosas brancas e amarelas, da cabeça para baixo, para lavar-se e livrar-se de todo mal.

Essa pessoa me perguntou se eu acreditava em tudo aquilo, e lhe respondi que acredito que as energias das pessoas sofrem influência do ambiente, das outras pessoas e, principalmente, de aspectos ligados a cada um de nós mesmos, que, quando em desequilíbrio ou em fragilidade, refletem em nossa performance.

Existe aquele dia em que estamos mais lentos, sem vontade de sair de casa, desejando nos jogar no fundo de uma rede e simplesmente cochilar. Isso acontece com todo mundo. Disse a essa pessoa que esse tipo de coisa é natural e que, de uma forma ou de outra, tudo se resolve.

Fazendo tudo que lhe foi indicado, de certa forma sentiu-se melhor, mas só veio a melhorar de verdade depois que recebeu uma mensagem pelo Instagram, de alguém de quem não tinha notícia há mais de trinta anos, pedindo-lhe cem reais emprestado, pois se encontrava doente e sem emprego.

Assim que leu a mensagem, dois pensamentos vieram-lhe ao mesmo tempo. O primeiro, que sua vida invejável estampada nas redes sociais, cheia de alegria, sucesso e felicidade, poderia estar atraindo energias pesadas de quem a observava com inveja. O segundo, que aquela mensagem poderia ser um desses golpes que ocorrem a todo instante, pois duvidou que alguém conhecido na juventude pudesse estar tão mal financeiramente.

Por um instante sentiu um aperto na garganta e um desconforto que começava no abdômen e subia para o tórax.

Respirou fundo e pensou que ajudar aquela pessoa, fosse ou não golpe, surtiria mais efeito positivo que os banhos, a vela e a reza, no sentido de melhorar seu estado.

Dito e feito. Imediatamente transferiu via pix o dobro do que havia sido pedido. A pessoa então respondeu dizendo que havia um engano, que havia pedido apenas a metade daquele valor. A resposta foi que aquilo não era um empréstimo, mas um presente.

Assim que terminou de teclar a mensagem, sentiu como se saísse de seus ombros um peso enorme, o mesmo peso que vinha carregando desde o início de todo aquele mal-estar. Os rituais talvez tivessem preparado o terreno. Mas foi aquele gesto de empatia e generosidade que verdadeiramente lhe curou.

O Pitch – uma declaração de amor ao cinema

Depois de cinco meses, voltei a assistir, desta vez em sua versão totalmente finalizada e revisada, ao nosso filme O Pitch – uma declaração de amor ao cinema, e devo dizer que estou feliz com o resultado que alcançamos.

Esse projeto nasceu do desejo de homenagear o cinema e as pessoas que idealizam e realizam filmes, valorizando, principalmente, a ideia por trás de tudo: a motivação, a história, o roteiro, sua adaptação e o esforço para transformar tudo isso em um produto audiovisual que transmita informação e cultura, e que seja veículo de arte e entretenimento.

Para que isso fosse possível, reuni cinco histórias que acredito terem o potencial necessário para prender a atenção do espectador, despertar sua curiosidade e lhe proporcionar satisfação, permitindo que ele se veja, ou reconheça nelas situações e experiências próximas às suas.

Um dos meus maiores prazeres na realização deste projeto foi poder contar com o apoio de uma das empresas ligadas ao Polo de Cinema do Maranhão e do Sindicato da Indústria do Audiovisual do Maranhão, a Steady Comunicação, além de pessoas como Coi Belluzzo, Sheury Manu Neves e Adriano Silper, e de um elenco formado por alguns dos melhores atores e atrizes do nosso estado, bem como de uma equipe técnica integralmente composta por maranhenses.

O elenco, com Áurea Maranhão, Breno Nina, Tassia Duh, Cesar Boaes, Tiago Andrade, Alberto Danúzio e Nádia de Cássia, demonstrou claramente a excelente qualidade artística que temos em nossa terra para a realização de bons projetos.

O corpo técnico do filme, igualmente composto por maranhenses, reafirma nossa capacidade de produzir com autonomia nesse setor.

Ter esse time comigo foi a garantia de realizar uma boa obra, de trabalhar em um ambiente harmonioso e de construir um processo em que a tônica fosse a alegria e o prazer.

Finalizado em dezembro de 2025, O Pitch foi inscrito, até o momento, em 25 festivais, tendo sido selecionado para 8, rejeitado em 2 e aguardando o resultado de outros 15.

Agora seguimos aguardando os resultados das seleções e das premiações nos festivais em que já fomos incluídos, bem como o retorno dos demais.

A mim, resta apenas agradecer a todos que participaram comigo desta jornada e dizer que, sempre que possível, estaremos juntos em novos projetos.

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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