
Sinto-me muito incomodado ao pensar que, porventura, eu esteja defendendo Flávio Bolsonaro, pois não tenho a menor vontade de fazê-lo. O que mais me incomoda, porém, é ouvir acusações que parecem afrontar a lógica e o bom senso.
Noticia-se que o indigitado personagem é investigado por lavagem de dinheiro e evasão de divisas, além de outros delitos. Sei que esses crimes não exigem, necessariamente, que os recursos tenham passado diretamente pelas mãos ou contas do investigado. Exigem, contudo, elementos concretos que indiquem que ele participou, consciente e voluntariamente, de atos destinados a ocultar a origem ou a destinação dos valores ou a promover sua remessa irregular ao exterior.
A pergunta correta, portanto, não é apenas por quais mãos ou contas o dinheiro passou, mas quais atos concretos ligariam Flávio Bolsonaro às supostas operações. Se os recursos nunca estiveram sob sua titularidade ou controle, é indispensável demonstrar de que maneira ele teria participado conscientemente de sua movimentação, ocultação ou envio ao exterior. Sem essa demonstração, não existe acusação juridicamente consistente, mas apenas suspeita, narrativa ou especulação.
Considero igualmente descabida a tentativa de associar outro Flávio, o ministro Flávio Dino, à anotação que menciona o sobrenome “Dino” e a quantia de R$ 15 bilhões. Faço críticas contundentes à atuação judicial do ministro, que, a meu ver, é parcial, ideológica e politicamente motivada e, por isso, injusta e juridicamente questionável. Isso não me autoriza, entretanto, a acusá-lo de envolvimento em corrupção financeira sem provas minimamente consistentes. Não acredito que Dino participe desse tipo de atividade delituosa.
Ser crítico de alguém investigado, como Flávio Bolsonaro, ou de alguém cujo sobrenome aparece numa anotação apreendida, como Flávio Dino, não nos obriga a aceitar qualquer acusação contra essas pessoas. Ao contrário: a honestidade exige que não tratemos como verdadeira uma acusação sem provas, mesmo quando ela atinge aqueles de quem discordamos.