Como nascem e morrem os heróis

Heróis e mártires nascem e morrem de maneiras muito semelhantes. Não surgem apenas por suas próprias virtudes, tampouco são produzidos pela vontade artificial de quem pretende ocupar um lugar na História. Eles aparecem quando a sociedade, cansada de abusos, necessita encontrar em alguém a coragem que já não reconhece em suas instituições.

O herói nasce no instante em que uma pessoa se encaixa perfeitamente no desenho das necessidades de seu tempo. Quando a mentira se torna regra, ele representa a verdade. Quando a covardia se espalha, ele demonstra coragem. Quando as leis são torcidas para servir aos poderosos, ele recorda que a Justiça não pertence aos homens que a administram, mas aos princípios que deveriam orientá-la. Sua força não está necessariamente naquilo que pode fazer, mas naquilo que se recusa a aceitar.

Em períodos de corrupção moral e desvirtuação institucional, um gesto de independência pode valer mais do que centenas de discursos. Uma palavra serena, pronunciada contra a corrente, torna-se abrigo para os que se sentiam abandonados. Um voto fundamentado na lei pode devolver alguma esperança a milhões de pessoas que já não acreditavam encontrar, dentro das próprias instituições, alguém disposto a reconhecer seus sofrimentos e a enfrentar as conveniências do poder.

É assim que nasce um símbolo: não porque seja infalível, mas porque tem a coragem de permanecer de pé quando tantos preferem se ajoelhar. Ele dá segurança e respostas às pessoas não por prometer milagres, mas por demonstrar que ainda é possível defender princípios morais, éticos e constitucionais sem pedir licença aos interesses dominantes.

A morte do herói, entretanto, costuma ser mais fácil de produzir. Quando sua existência começa a incomodar, os beneficiários da desordem procuram eliminá-lo. Nem sempre fisicamente. Nas sociedades modernas, é possível matar alguém funcionalmente: isolando-o, ridicularizando-o, desmoralizando-o, esvaziando sua autoridade ou transformando sua virtude em suspeita.

Primeiro tentam desacreditar suas palavras. Depois questionam suas intenções. Em seguida, apresentam sua independência como radicalismo, sua coerência como obstinação e sua fidelidade à Constituição como ameaça às instituições. Não podendo responder aos seus argumentos, procuram silenciar quem os proferem. Não conseguindo destruir a verdade, dedicam-se a destruir aquele que teve a coragem de dizê-la.

Esse é o paradoxo dos heróis e dos mártires: nascem porque respondem aos anseios do povo e são condenados justamente porque não deixam esses anseios adormecer. Tornam-se perigosos para aqueles que dependem do medo, do silêncio e da resignação coletiva.

Contudo, quem tenta eliminar um símbolo quase sempre comete um erro. Um homem pode ser impedido de agir, mas o exemplo que ofereceu já não lhe pertence. Uma voz pode ser abafada dentro de uma instituição, mas continuará ressoando na consciência daqueles que a ouviram.

Talvez ainda existam, no coração das instituições, pessoas dispostas a servir à Justiça em vez de se servir dela. Se houver ao menos uma, haverá esperança. E enquanto essa esperança permanecer viva, nenhum herói terá sido completamente derrotado e nenhum mártir terá morrido em vão.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

Busca

E-mail

jnhaickel@gmail.com

No Twitter

Posts recentes

Comentários

Arquivos

Arquivos

Categorias

Mais Blogs

Rolar para cima