
Essa noite sonhei com meu velho amigo Átila Sik, um húngaro que viveu aqui em São Luís na década de 1990 e que, depois da redemocratização dos antigos países satélites da descaída União Soviética, resolveu voltar para a sua terra, para comer a deliciosa paprikás csirke que sua frondosa mãe, dona Katalin, preparava. Uma delícia gastronômica que tive o prazer de provar quando lá estive com ele.
Pois no sonho Átila me ligava, preocupado, pensando em voltar para cá, porque lá, segundo ele, a coisa está ficando feia. Disse que o presidente é um ditador, e que a suprema corte deles só faz o que o Orbán deseja e manda. Fiquei ouvindo, calado, enquanto ele desfiava as suas queixas, e confesso que, a cada frase, eu tinha uma estranha sensação de já ter ouvido aquilo em algum lugar.
Contava-me, indignado, que na Hungria a suprema corte anda fazendo coisas que não são bem da conta dela. Que os juízes de lá vivem dando entrevistas e palestras, e que, em vez de julgarem conforme as leis, andam interpretando-as segundo seus desejos pessoais e ideológicos, e que, quando o texto da constituição não os agrada, dão um jeito de torcê-lo até que diga o contrário do que diz. “Imagina você”, falava o Átila no sonho, “um juiz que legisla, que cria regra que o parlamento não criou”.
E foi contando tudo que estava acontecendo por lá. Que prenderam um blogueiro, um desses que se metem a jornalista sem ter diploma, só porque noticiou que um figurão desfrutava de mordomias que não devia. Que houve busca na casa do sujeito, apreensão de celular, computador, e uma conversa toda de que ele estaria cometendo crime ao proteger a fonte que lhe contou a história. “Vejam só!… aqui na minha terra!…”, dizia o Átila, “voltou a ser crime contar o que os poderosos não querem que se conte”. Eu balancei a cabeça, cá do meu lado da linha, e não disse nada, porque a garganta tinha ficado meio apertada.
E Átila não parava. Disse que agora, lá na Hungria, andam querendo até exigir diploma para a pessoa poder ser jornalista, uma ideia velha, dos tempos da ditadura comunista, que tinham enterrado depois da queda da Cortina de Ferro, e que agora, veja você, andam querendo desenterrar. Falou também dos ministros da corte húngara, um por um, e disse que, de um tempo para cá, todos passaram a ser reconhecidos na rua, pois, se antes viviam escondidos, agora vivem aparecendo na televisão.
Comentou que por lá há um que se diz vítima o tempo todo, o mais poderoso dos homens togados a reclamar de perseguição, como se o gigante tivesse medo do anão. E há outro, de fenomenal inteligência, que usa essa inteligência toda para construir sofismas, para comparar coisas incomparáveis, para justificar o injustificável com cara de doutor. “São homens que juraram guardar a constituição”, disse o Átila, “e passam os dias a driblá-la”. Eu quis dizer que na Hungria as coisas eram assim mesmo, mas as palavras não saíram.
Aí o Átila baixou a voz, como quem teme ser ouvido, e me disse a frase que me deixou pensando a noite inteira. Disse que na Hungria de hoje a ditadura não chega de uma vez, fardada, com tanque na rua. Ela chega devagar, de beca, com voto e carimbo, um pouco a cada dia, contra um cidadão hoje, contra um jornalista amanhã, contra qualquer um depois, sempre com aparência de legalidade, sempre com um parecer bem escrito por baixo. “É essa a pior”, disse ele, “a que se veste de direito para matar o direito”.
Foi então que me perguntou, meio sem jeito, se podia contar comigo. Se, na hora do aperto, podia fazer as malas e voltar para São Luís, para a paz do Maranhão, para longe daquele regime que ele descrevia. E eu fiquei sem saber o que responder. Porque como é que eu ia dizer ao Átila que viesse, sem deixá-lo pensar que estaria fugindo da tirania e dos desmandos dos poderosos, se disso, aqui, ele não fugiria?
Fiquei calado um tempo. E depois só disse: “Vem, Átila, vem. Mas não venhas por causa da liberdade, não. Aqui não terás a paprikás csirke da dona Katalin, mas terás as delícias da culinária maranhense, o feijão com verdura que você tanto gosta, e ainda podemos ir para a Base do Edilson comer a sua deliciosa caldeirada.”
Foi aí que acordei. Assustado, e morrendo de fome.
- Na ilustração, da esquerda para a direita, Paulinho Coelho, Antônio Carlos Barbosa, Átila Sik e Joaquim Haickel, em solenidade em Budapeste, 1992.