O ROTEIRO DA PRÓPRIA VIDA

Tudo começa num pensamento. As ideias que cultivamos vão, mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro, virando um roteiro, e esse roteiro acaba sendo produzido, realizado. Por isso, a primeira coisa a ser feita é roteirizar nossas vidas. Desenvolva pensamentos e ideias que componham uma história de superação, de alegria, de sucesso. Ela não precisa ser perfeita, nem isenta de problemas, uma vida assim não existe. Precisa ser uma história otimista, de quem se vê vencendo, porque o nosso íntimo assiste ao filme que passamos para ele e, sem que percebamos, sente, realiza e reproduz o que vê na tela de nossos pensamentos.

É aqui que entra o poder da palavra, e faço questão de dizer que não há nada de religioso nisso. A religião apenas se apoderou dessa ideia antiga para os seus próprios fins, mas a ideia é mais velha e mais simples que qualquer credo. A palavra é, ao mesmo tempo, a estrada, o veículo e o combustível que podem nos levar onde queremos chegar. Frases ruins atraem coisas ruins, frases boas atraem coisas boas, e isso não é magia, é o modo como a mente se programa para agir. Pensar sempre no pior, no que pode dar errado, é chamar o pior para perto. Mas atenção, porque há um engano igual e contrário: não pensar em como resolver os problemas é tão nocivo quanto só pensar neles. O otimismo de que falo não é fechar os olhos, é manter os olhos abertos procurando a saída.

Aprendi também que a fé, essa palavra tão gasta, não é um sentimento, é um comportamento. O que move montanhas não é a fé de altar, é a fé de quem planta e sabe esperar a colheita. E ao lado dela caminha a generosidade, que funciona como um bumerangue: quem espalha a prosperidade, dando, vê o fluxo voltar, mais cedo ou mais tarde, para as suas próprias mãos. Não por mágica, mas porque o mundo devolve, com o tempo, aquilo que a gente põe nele.

Há uma verdade que demorei a entender, e ela parece um paradoxo: nada neste mundo resiste a uma pessoa que não resiste. Não confunda isso com passividade. É uma atividade passiva, o firme propósito de não combater o mal com o mal, nem o ódio com mais ódio, porque essas coisas se retroalimentam, e quanto mais você briga com elas, mais forte as torna. A serenidade vence a tormenta como o bem, no fim, vence o mal. O melhor exemplo disso é a água, a coisa mais suave que existe. Quando algo lhe barra o caminho, ela não se enfurece, faz uma curva e segue. E se for muita, e constante, não há obstáculo que ela não acabe derrubando.

Por isso devemos reverenciar os obstáculos, sem medo, sem pânico e sem drama, porque o obstáculo, quase sempre, é apenas a estrada disfarçada. E o maior dos obstáculos que carregamos é o rancor. Perdoar não é fingir que a dívida não existiu. É desvalorizá-la, até que ela deixe de ser um peso que você arrasta por anos. Guardar rancor é assinar um crédito que trabalha de graça em favor da dor, um ciclo que não termina e que escraviza quem o alimenta. E há um perdão ainda maior escondido atrás do perdão que damos aos outros: o perdão a nós mesmos, que é o mais difícil de todos.

Esse trabalho interno, o de se livrar dos fardos, não se faz na força. Lutar de frente e de peito aberto contra o próprio subconsciente quase nunca dá certo. Essa é uma batalha que se vence com tranquilidade, com serenidade, com consciência, do mesmo jeito da água. E quando a gente se desfaz do fardo, a liberdade que se sente muda por dentro o próprio padrão daquilo que a mente passa a produzir.

Aprendemos na escola que temos cinco sentidos, mas somos, na verdade, dotados de seis. A intuição é o mais alto deles. Os outros cinco são físicos, ligados ao corpo e ao convívio, só a intuição é transcendente, vem de um lugar que não se explica. Vale ficar atento aos sinais, porque a intuição, somada à inteligência e ao conhecimento, é justamente o que mais nos distingue e o que melhor nos guia. E, guiados por ela, chegamos ao amor, que precisa ser bem entendido: o amor de que falo não é o sentimento romântico, é a boa vontade irradiada em todas as direções, para todos, sem exigir contrato nem retribuição.

Falta falar do medo, e deixei-o para o fim de propósito, porque é ele que mais nos governa. O medo é apenas a fé invertida, ou a fé que falhou. Mas seria tolo condená-lo, porque é o medo que faz com que nos movamos, nos faz reagir, sair do lugar, e enfrentá-lo é, em si, o próprio ato de fortalecer a fé no bem. O antídoto contra o medo não é a coragem bruta, de peito estufado. É ter a coragem de ter fé, de acreditar no poder da palavra, nas leis, nas regras do jogo da vida. Cada medo enfrentado vira músculo para os próximos embates, e a gente segue no jogo mais forte do que entrou.

No fim, é disto que se trata. Seguir essas regras, essas leis do jogo da vida, não nos garante a vitória, porque a vitória nunca esteve inteiramente em nossas mãos. Mas nos garante uma coisa que vale mais e que depende só de nós: a de termos jogado bem. E jogar bem, ao cabo de tudo, talvez seja a única vitória que de fato importa.

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Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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