Uma nova função para as IAs: verificação e validação de bom senso

Em uma democracia de verdade é aceitável que um ministro da suprema corte convide para um jantar, na sua própria casa, o presidente da república e o presidente do senado, que andam em pé de guerra, para tentar apaziguar os ânimos entre os dois?

Resolvi então levar essa questão, que não me saía da cabeça, à apreciação de uma inteligência artificial. Pedi que ela discorresse sobre o assunto dos pontos de vista jurídico, ético e político, baseando-se no valioso bom senso, e a resposta veio assim:

Numa democracia de verdade, os três poderes precisam ser realmente independentes e harmônicos. Cada um no seu lugar. O executivo administra o país. O legislativo faz leis e fiscaliza o executivo e o judiciário, porque ele é o poder composto por representantes eleitos pelo povo com estas finalidades, e é somente ao povo, através das eleições, que ele responde. E o judiciário analisa e julga os processos, e só isso. Deve julgar com imparcialidade, com isenção, não se manifestando fora dos autos, e não entrando na cena política em nível nenhum. O juiz fala nos autos, pela sentença, e cala em todo o resto. Essa é a régua que estabelece a medida exata da democracia verdadeira. Fora disso não há democracia.

Pela régua, um ministro da suprema corte que reúne à sua mesa os chefes dos outros dois poderes para costurar a paz entre eles saiu do seu lugar. Trocou a toga pela função de articulador político. Função que não é dele. E aqui está o ponto que mais importa, e vale para qualquer juiz do mundo: quem julga não pode ser quem concilia nos bastidores, porque, no dia em que aquela briga chegar ao tribunal, como é que se confia na isenção de quem já se sentou à mesa, já tomou partido de apaziguar, já se meteu no meio? O juiz que desce ao campo para separar os jogadores perde a autoridade de apitar a falta depois. Ganha a paz de uma noite e perde a imparcialidade de todos os julgamentos seguintes.

Do ponto de vista ético, o estrago é ainda maior, porque a justiça vive de aparência tanto quanto de essência. Não basta o juiz ser imparcial, ele precisa parecer imparcial, para que o povo confie nele. Um magistrado que se põe de mediador entre os poderes, por melhor que seja a intenção, e admito que até poderia ter uma ótima intenção, fere essa aparência, e uma vez ferida, ela não se remenda com boas intenções.

E quando fui verificar se isso já aconteceu assim, do mesmo jeito, em alguma democracia, achei o que talvez seja o mais revelador de tudo. O caso idêntico, com essas três peças e esse propósito, não se encontra. Mas há um episódio vizinho que ensina. Nas Filipinas, em 2012, quando o presidente e o chefe da suprema corte viviam em atrito aberto, discutiu-se quem deveria servir de ponte entre eles. E a conclusão a que por lá chegaram é que o mediador não poderia ser ninguém dos poderes constituídos do país, mas sim alguém de fora, neutro, como a Igreja.

Então a resposta honesta é esta. Não se pode dizer que algo semelhante jamais ocorreu no mundo, mas o fato de ter ocorrido não significa necessariamente ser o correto.

O que é preciso dizer, com todas as letras, é que esse acontecimento fere o princípio que sustenta a democracia, que é a separação e a independência dos poderes, e que os melhores exemplos, mesmo em hora de crise, condenam essa mistura, não a celebram. Um jantar assim pode até ser bem-intencionado. Mas o lugar do juiz nunca foi a cabeceira da mesa entre os dois brigões. É o banco de onde, amanhã, um deles, ou quem sabe os dois, poderão vir a ser julgados.

Foi o que a máquina respondeu. Concordo com cada palavra. E deixo a pergunta também para você, que me lê.

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Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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