O primeiro ato de uma candidatura

Durante aquela tenebrosa sessão de nossa Suprema Corte, no dia 15 de setembro, uma coisa me inquietava profundamente. Ficava tentando entender a lógica seguida pelos ministros do STF ligados ao presidente Lula, que faziam de tudo para impedir a abertura de investigações sobre as relações entre o ministro Alexandre de Moraes e o Banco Master.

O que se viu foi que, ao lado de Moraes, estavam, em maior ou menor grau, os ministros Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Flávio Dino. A participação do próprio Moraes, por si só, já seria algo completamente inconcebível, uma vez que o bom senso universal estabelece que uma pessoa não pode participar de uma decisão jurídica na qual tenha interesse direto ou seja parte.

Cristiano Zanin defendeu Moraes discretamente, talvez porque imaginasse que, por ser umbilicalmente ligado a Lula, qualquer defesa que fizesse de Moraes seria interpretada pela população como se o próprio presidente estivesse defendendo o ministro sob suspeita, numa tentativa de impedir a investigação e a consequente apuração das possíveis irregularidades cometidas pelo amigo do presidente.

Acredito que Gilmar Mendes defendeu Moraes porque essa defesa também poderia servir para proteger todos aqueles que fossem flagrados em situação semelhante, inclusive ele próprio, além de algumas pessoas ligadas a ele, como seu amigo e ex-sócio, o PGR Paulo Gonet, e seu amigo Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, cuja filha é estagiária no gabinete de Mendes.

Flávio Dino, ex-ministro da Justiça do presidente Lula, de quem é amigo particular, preferiu não ter uma participação discreta naquela sessão, como fez Zanin. Pelo contrário. Adotou uma posição enfática em defesa de Moraes, mesmo sabendo que isso deixaria seu comparsa, o presidente Lula, em uma situação delicada perante a opinião pública, uma vez que todos interpretariam as atitudes de Dino como atitudes de Lula destinadas a livrar Moraes das investigações, cuja abertura era, e ainda é, um clamor de parcela muito expressiva da sociedade.

Penso que outro motivo que pode ter levado Dino a ser tão contundente e categórico na defesa de Moraes tenha sido em retribuição ao colega pelas medidas persecutórias, adotadas por Moraes contra o jornalista maranhense que noticiou o uso irregular de um veículo pertencente ao Tribunal de Justiça do Maranhão por Dino e seus familiares.

Dito isso, resta uma questão a ser respondida: se os comportamentos de Moraes, Zanin e Mendes são facilmente explicáveis, por que a atuação de Flávio Dino em sua titânica defesa de Alexandre de Moraes parece, à primeira vista, tão inexplicável do ponto de vista lógico?

Pensei muito sobre esse assunto e acredito que não teria chegado a nenhuma conclusão satisfatória se não tivesse visto as inúmeras manifestações de militantes de esquerda apoiando as atitudes do ministro Flávio Dino naquela horrenda sessão. Mais que isso: muitas postagens, publicadas por pessoas ligadas a ele ou por seus admiradores, faziam campanha eleitoral explícita em favor do impoluto e rotundo ministro e lançavam seu nome à disputa pela Presidência da República em 2030. Algumas dessas manifestações eram, inclusive, promovidas por partidos políticos. Um absurdo. O homem é ministro da Suprema Corte e está sendo cortejado para disputar a Presidência da República!

Foi aí que entendi tudo.

O que Dino fez naquela sessão foi mostrar a todo o Brasil que é inteligente, culto, eloquente, bem preparado, combativo e tenaz. Na minha avaliação, essas qualidades não são encontradas nos dois candidatos que praticamente monopolizam a disputa pela Presidência de nosso país nestas eleições.

Quem viu a atuação de Dino naquela sessão e a compara com aquilo que Lula e Flávio Bolsonaro são capazes de fazer em uma campanha eleitoral certamente poderá concluir que o ministro é muito mais bem preparado do que os dois somados!

Ao perceber isso, entendi que aquela atuação de Dino pode ter sido o primeiro ato de sua candidatura à Presidência da República.

Alguém certamente dirá que a maioria da população considerou deprimente o que Dino protagonizou naquele dia. Dirão que ele foi irônico, debochado e zombeteiro; que foi deselegante, mal-educado e grosseiro; que sofismou, desvirtuou os fatos e até mentiu.

Ora, ainda que muitas pessoas pensem assim, a exacerbada polarização política faz com que exista um percentual bastante expressivo de pessoas que consideraram sua atuação sensacional e se sentiram representadas pelas atitudes de Flávio Dino. Pobre Brasil!

Imaginemos que, entre todas as pessoas que assistiram àqueles acontecimentos deploráveis, 70% tenham reprovado e rejeitado as atitudes de Dino naquela sessão, enquanto 30% tenham se identificado com o que ele disse e fez. Para alguém que ainda não possuía grande relevância eleitoral nacional, conquistar a identificação de 30% desse público já seria muita coisa.

Minha impressão é que Lula, mesmo sendo amigo de Alexandre de Moraes, não desejava que ministros intimamente ligados a ele se expusessem a tal ponto que pudessem comprometer sua popularidade nesta reta final da eleição. Zanin entendeu isso e agiu discretamente. Mendes fez o que sempre faz: demarca e invade territórios desprotegidos. Dino, assim como Zanin, deve ter entendido o desejo de Lula, mas preferiu fazer aquilo que considerou melhor para si próprio: mostrar-se ao público esquerdista como uma possível opção para o futuro.

PS: Alguns amigos têm me aconselhado a não fazer comentários sobre a atuação de Flávio Dino, pois segundo eles, o ministro não aceita críticas, é muito rancoroso e vingativo e vai arrumar algum meio de me atingir. Como fui um dos constituintes de 1988, prefiro amparar-me em nossa Carta Magna, que me assegura a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, impõe-me o dever de respeitar os direitos alheios. Aguardemos.

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Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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