
Aconteceu esta semana o encerramento do Festival de Cinema da Universidade Federal do Maranhão, o famoso Guarnicê, que, quando começou, em 1977, chamava-se Jornada Maranhense de Super 8 e foi idealizado por pessoas sensacionais como Mário Cella e dirigido por então jovens cineastas, Murilo Santos e Euclides Moreira. Depois passou a se chamar Jornada Maranhense de Cinema e Vídeo.
Eu comecei a participar desse festival em 1984, quando João Ubaldo de Moraes me procurou, lá na Revista Guarnicê, que fazíamos — eu, Celso Borges, Roberto Kenard, Paulinho Coelho, Érico Junqueira Ayres, Cordeiro Filho, entre outros —, para que realizássemos um curta-metragem para concorrer na Jornada de Cinema da UFMA.
Daí saiu meu primeiro filme: The Best Friend — O Amigão, filme experimental, baseado em mímica, que acabou ganhando os dois principais prêmios daquele ano: melhor filme maranhense, pelo júri técnico, e melhor filme do festival, pelo júri popular.
Ali começava efetivamente minha estrada no cinema.
Quando encerramos as atividades da Revista Guarnicê, quem estava à frente do festival de cinema da UFMA resolveu mudar o nome do evento para Festival Guarnicê de Cinema, o que para mim foi motivo de honra, pois esse nome é muito representativo na cultura maranhense.
Inclusive, muita gente, principalmente no sul, ao ouvir o nome de minha produtora, que existe desde 1984, me pergunta o que significa Guarnicê. Penso que mesmo aqui poucos sabem responder corretamente. Guarnicê faz referência ao momento de preparação e fortalecimento dos grupos de bumba meu boi, antes de a brincadeira começar; é aquilo que eles também chamam de “arreuní”. Um momento único e lindo de camaradagem. Tudo o que deveria sempre haver em eventos culturais.
Bem, mas de lá para cá já se vão 42 anos e mais de 200 filmes, como produtor, roteirista ou diretor, até chegarmos agora, em 2026, com o filme “O Pitch — uma declaração de amor ao cinema”, realizado em três semanas de gravações, com elenco e staff técnico eminentemente maranhense. Quem aqui não nasceu já mora aqui há bastante tempo e trabalha aqui, ajudando a “guarnicê” nossa cultura e nosso cinema.
Isso foi a coisa mais sensacional de todo esse projeto. Isso e a forma como ele foi realizado. Um filme de intervalo aberto, em que todos, todos mesmo, puderam participar da construção de cada detalhe.
Havia um roteiro escrito, mas os atores tiveram toda a liberdade de, dentro dele, improvisarem como achassem melhor. Esse mesmo roteiro estava muito bem decupado, com indicações técnicas minuciosas, mas todo o pessoal técnico — fotógrafos, iluminadores, designers de ambientes, figurinistas, cabeleireiros e maquiadores — pôde trabalhar de forma completamente livre, experimentando coisas que engrandeceram seus trabalhos.
O filme está realmente muito bom e foi aplaudido por uma sala completamente lotada no dia de sua apresentação no festival. Todos adoraram e depois até se reuniram para comentar o filme. Foi fantástico.
No dia do encerramento, O Pitch recebeu três prêmios merecidíssimos: melhor atriz, para Áurea Maranhão; melhor ator, para Breno Nina; e melhor atriz coadjuvante, para a querida Nádia de Cássia, que tiveram seu impecável trabalho reconhecido e a quem agradeço, assim como a todos os outros que participaram deste projeto, pela dedicação e o amor que ofereceram a ele e a nós.
Hoje nosso filme acumula vinte e uma seleções para festivais no Brasil e no exterior e, dentro destas, 13 prêmios, o que nos faz sentir que realizamos uma coisa boa, apreciada não por todos, mas por alguns. Mesmo assim, essas pessoas não podem imaginar que, mais gratificante que as seleções e as premiações, é ter podido realizar este trabalho como o realizamos: como um grupo coeso, reunidos diariamente por três semanas, para, juntos, apoiando uns aos outros, realizarmos algo de que nos orgulhássemos, não só pelo resultado, mas pela jornada, pelo GUARNICÊ — no mais puro e genuíno sentido desta palavra.