Corrijam-me se eu estiver enganado!…

Desculpem-me, mas estou na finalização de dois longas metragens e de uma minissérie, e não tenho tido tempo nem paz de espírito para acompanhar, como gostaria, os acontecimentos da política. Ainda assim, uma notícia me pôs o dedo na ferida. O ministro Flávio Dino, a quem sempre reputei um dos mais preparados e competentes do STF, assinou agora, juntamente com outros três pares seus, um voto que libera grande parte dos penduricalhos que o próprio Dino, na condição de relator da matéria, com aplauso meu, inclusive, havia condenado há apenas três meses. Entidades da sociedade civil chamam isso de grave recuo. Tais entidades, insuspeitas de qualquer perseguição a ele, dizem, com todas as letras, que a tese, correta, está sendo esvaziada pelas mãos de quem a escreveu.

E aqui está o que mais me incomoda, e não é o nome de ninguém, é o método. Condena-se em voz alta, diante das câmeras e dos aplausos, e libera-se em voz baixa, três meses depois, no recolhimento de um plenário virtual, na esperança de que o país guarde só a primeira cena e perca a segunda. Aposta-se na desatenção do público, na ideia de que ninguém vai conferir o antes com o depois. Pois eu conferi. E o que sobra, quando se põem as duas decisões lado a lado, não é divergência de doutrina, é a distância entre o que se diz e o que se faz.

Não me move nenhuma bandeira ideológica ou partidária, me move a coerência, e ela vale para todos, inclusive para mim, que aplaudi a primeira decisão e por isso mesmo me sinto no direito de cobrar a segunda. Faço a conta simples que qualquer cidadão pode fazer: o que foi proibido em março, e o que foi liberado em junho, pelas mesmas mãos. A diferença entre as duas colunas é o tamanho exato do que me assombra. Não a opinião de um ministro, que é livre para mudar de posição, mas a engenharia de mudar sem que pareça que mudou, sob togas que, vez por outra, servem menos de toga e mais de manto, para cobrir o que não quer ser visto.

Dou a essas três coisas o seu nome exato, sem rodeio. Condenar diante das câmeras e liberar no escuro do plenário virtual é incoerência. Fazê-lo sem o menor constrangimento, à vista de quem quiser conferir, é desfaçatez. E seguir vestindo a toga de guardião do teto enquanto se abre a porta dos fundos para o que se jurou barrar, isso, senhores, é hipocrisia. Não me assombra que um homem mude de ideia. Assombra-me que mude esperando que ninguém repare.

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Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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