Depois do voto: um balanço e um desabafo

São exatamente dez horas e dez minutos do dia 4 de outubro de 2026. Acabo de chegar em casa, vindo de minha seção eleitoral, onde votei para deputado estadual, deputado federal, dois senadores, governador e presidente da República, e resolvi registrar os sentimentos que tomaram conta de mim nos últimos dias.

Lembrei-me do tempo em que ainda não havia ingressado efetivamente na política. Em 1976, há exatos cinquenta anos, fui a Pindaré-Mirim fazer campanha para meu tio Zé Antônio, que se elegeu prefeito naquele pleito. Depois, veio a eleição de meu pai para deputado federal, em 1978.

Naquela época, eu acalentava o desejo de ser candidato a vereador em São Luís, em 1980. Houve, porém, uma prorrogação de mandatos, e acabei concorrendo a deputado estadual em 1982, quando me elegi pela primeira vez. Tinha apenas 22 anos.

Hoje tenho consciência de que, naquele momento, eu não estava devidamente preparado para tamanha responsabilidade. Ainda cursava a Faculdade de Direito e tinha pouca noção de tudo o que envolvia o exercício de um mandato parlamentar. Esse era o lado ruim. O lado bom foi ter convivido com alguns dos melhores políticos daquela época. Com eles, tive a oportunidade de, em apenas quatro anos, diplomar-me na verdadeira escola da política e adquirir condições para seguir em frente.

Em 1986, elegi-me deputado federal constituinte. Mais uma vez, senti-me menos preparado do que deveria. Mas quase todos ali enfrentavam, em diferentes proporções, desafio semelhante. Tive o bom senso de me aproximar dos melhores e, muito rapidamente, aprendi grande parte do que precisava saber.

Depois, voltei de Brasília e exerci, alternadamente, os cargos de deputado estadual e secretário de Estado, até decidir afastar-me da vida pública. Ao todo, essa jornada durou 32 anos.

Feito esse balanço, digo a você, que me prestigia com sua leitura, que me sinto feliz e orgulhoso por ter permanecido durante todo esse tempo na política sem carregar nódoa ou mácula capaz de me desabonar.

Mais do que isso: meu coração se enche de alegria quando encontro alguém que me cumprimenta, ainda que apenas com um leve aceno de cabeça ou de mão, e percebo naquele gesto uma lembrança respeitosa. Fico igualmente feliz quando pessoas dizem apreciar minhas ponderações jornalísticas e se sentem representadas por elas. Nesses momentos, sinto-me verdadeiramente recompensado.

Quanto aos sentimentos mais recentes que tenho experimentado, preciso dizer que são de revolta e angústia. Revolta por ver meu país sendo dilacerado, de maneira torpe e cruel, justamente por pessoas que, mais do que todas as outras, deveriam zelar por sua proteção incondicional.

Vejo um Poder Legislativo profundamente corrompido por práticas inadmissíveis relacionadas às emendas parlamentares. Elas podem e devem existir como instrumentos legítimos de distribuição dos recursos públicos, mas não podem ser transformadas em moeda de troca financeira e política.

As ações equivocadas do Legislativo, e, principalmente, suas omissões nos momentos em que deveria agir, estão na origem de quase todos os graves problemas institucionais que surgem posteriormente em nosso país.

As enormes deficiências do Poder Executivo são, em boa medida, consequência direta da fraqueza do Legislativo, agravadas pela incapacidade dos ocupantes do governo de oferecer respostas sensatas, corretas e eficientes às demandas da sociedade.

Até aí, as coisas já estavam ruins, mas ainda permaneciam submetidas a alguma possibilidade de controle. Executivo e Legislativo derivam diretamente da vontade popular e estão sujeitos ao julgamento das urnas. Em última análise, os eleitores também possuem responsabilidade pelo que acontece nessas duas esferas de poder.

A situação se complica enormemente quando entra nessa equação o Poder Judiciário, cujos integrantes não são escolhidos diretamente pela população. No caso dos tribunais superiores, seus membros são indicados pelo Executivo e aprovados pelo Legislativo. Quando esses dois Poderes se acomodam, se omitem ou estabelecem relações de conveniência, contando ainda com a cumplicidade da maioria dos integrantes do terceiro, instala-se o caos institucional e desaparecem os mecanismos efetivos de controle.

Estou escrevendo o que sinto, sem pensar demasiadamente nas consequências nem saber exatamente como concluirei este texto, quando me vem à lembrança uma pergunta feita por meu sobrinho Nagib Neto:

— Dindão (é assim que ele me chama), por quem o senhor sente mais ódio: pelos ministros do STF, pelo presidente da República ou pelo presidente do Senado?

Expliquei-lhe que não me concedo o direito de alimentar por ninguém sentimentos tão pesados e negativos, pois eles terminam voltando-se contra nós mesmos. Isso, porém, não significa que eu deixe de fazer severas restrições às atitudes que acredito estarem prejudicando nosso país de maneira avassaladora.

Minhas críticas mais contundentes dirigem-se aos ocupantes do Poder do qual fiz parte: o Legislativo. Se ele se impusesse, se fosse criterioso, honrado, independente e nobre, grande parte do que está acontecendo jamais teria acontecido.

Precisamos, contudo, ser realistas: o Congresso Nacional é formado por 594 parlamentares, e um universo dessa dimensão é extremamente difícil de organizar e controlar, mas algo precisa ser feito no sentido de diminuir o caos desse poder.

Há um detalhe grave e fundamental: o presidente do Senado Federal jamais poderia ser um calhorda, pois, em última análise, muito do equilíbrio entre os Poderes e da preservação das instituições depende de sua conduta.

Em segundo lugar, minha crítica mais furiosa recai sobre o Poder Judiciário, representado por nossa Suprema Corte, que considero politicamente aparelhada e refém das circunstâncias e conveniências que cercam as indicações de seus integrantes. Chegamos ao ponto de a imprensa chamar, sem a menor cerimônia, determinado ministro de capo di tutti i capi e outro de “líder do governo no STF”.

O Supremo tomou de assalto a República, destruiu o devido processo legal e subverteu o Estado Democrático de Direito. Depois disso, tudo passou a ser possível para alguns de seus integrantes e contra isso me oporei sempre e de todas as maneiras que estiverem ao meu alcance.

A responsabilidade do Poder Executivo e do presidente da República não é menor. Ela se agrava quando o ocupante do cargo é um mentiroso contumaz que, para permanecer no poder, destrói tudo o que estiver ao seu alcance; ou quando se apresenta ao país alguém boçal, que não respeita as pessoas e manifesta comportamentos preconceituosos, misóginos e racistas.

Bem… Eu votei.

E espero que dessa eleição possa surgir um Brasil melhor. Mas ter esperança não é tudo o que podemos fazer. A esperança, sozinha, é apenas um desejo. Precisamos agir, fiscalizar, cobrar, denunciar os abusos e lutar para construir o país que desejamos.

O voto é apenas o primeiro passo. Os passos seguintes devem ser dados com consciência, coerência e coragem. Meu compromisso é, e continuará sendo, lutar contra a mentira, a hipocrisia e a arrogância e defender aquilo que acredito ser certo, legal e justo.

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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jnhaickel@gmail.com

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