Minha opção pelos antigos.

Yitzhak Rabin foi soldado a vida inteira antes de ser estadista. Saiu do Palmach ainda jovem, comandou na guerra da criação de Israel, em 1948, e foi o chefe do Estado-Maior que conduziu o exército à vitória-relâmpago na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Homem taciturno, sem o dom para a bajulação, feito todo de dever. E foi esse general, que conhecia a guerra por dentro, quem teve a coragem de apertar a mão de um duro inimigo, Arafat, no gramado da Casa Branca, em 1993, e assinar o acordo de Oslo, pelo qual mereceu o Nobel da Paz. Pagou por ela o preço máximo: em novembro de 1995, num comício que comemorava exatamente a paz, em Tel Aviv, um fanático, judeu radical, o matou. Morreu pela coisa à qual dedicou a vida e entrou triunfante na história.

Benjamin Netanyahu não é homem sem feitos, e sou justo: serviu numa tropa de elite, foi ferido em combate e perdeu o irmão Yonatan, herói tombado no resgate de Entebbe. Mas reparem no que se converteu. Fez-se o mais longevo primeiro-ministro do país, e essa permanência é a sua obra-prima: a arte de durar, de costurar coalizões, de responder às acusações nos tribunais sem soltar o poder, de partir ao meio o próprio povo. E foi sob a sua guarda, a do homem que se vendeu como senhor da segurança, que veio o 7 de outubro de 2023, a maior falha de defesa da história de Israel.

Um general deu a vida para encerrar uma guerra. O outro consome um país para prolongar a si mesmo.

Passo aos Estados Unidos, e a medida não muda.

John Kennedy comandou uma lancha-torpedeira no Pacífico, e quando um destroier japonês a partiu ao meio, salvou a tripulação, rebocando um ferido pela alça do colete presa entre os dentes, a nado, por horas. Voltou herói, escreveu sobre a coragem um livro que lhe valeu o Pulitzer, e chegou à Presidência para pedir aos seus compatriotas, na posse, que não perguntassem o que a pátria podia fazer por eles, mas o que eles podiam fazer por ela. Fundou os Corpos da Paz. Diante dos generais que exigiam bombardear Cuba, segurou o dedo no gatilho e achou, na crise dos mísseis, o caminho estreito que poupou o mundo do fogo atômico. Prometeu à nação um homem na Lua antes do fim da década, sonho impossível, e a nação o cumpriu depois que ele já tombara em Dallas. Tudo isso em menos de três anos.

Trump tampouco é um nada, e reconheço: venceu duas eleições e ergueu um movimento que sacudiu o seu país e o mundo. Só que o que oferece é de outra estofa. É o construtor falido virado celebridade de televisão, a frase de efeito, o ressentimento alçado a programa de governo, a política rebaixada a espetáculo e a postagem. Kennedy convocava um povo ao sacrifício e às estrelas. Trump convoca uma plateia ao aplauso, e é ele, no fim, quem pergunta o que a pátria pode fazer por ele mesmo.

Vou agora ao esporte, para que ninguém diga que falo só de política.

Vi Ayrton Senna correr, e digo sem receio de exagero que vi um homem possuído. Foram pouco mais de dez temporadas, de 1984 a 1994, em máquinas que matavam de verdade, com quase nenhuma proteção, sem a extrema segurança de hoje. Três títulos, e uma genialidade na chuva que beirava o sobrenatural: a estreia em Mônaco, em 1984, num carro fraco, devorando os outros sob o aguaceiro; a primeira volta de Donington, em 1993, em que passou meio grid numa só tacada. Era feroz, não era santo, e o confesso: tirou Prost da pista em Suzuka para cravar um título. Mas foi o mesmo homem que, em Spa, parou o próprio carro, cruzou a pista a pé, sob o risco de morrer atropelado, para socorrer um rival caído e desligar-lhe o motor com as mãos. Doava fortunas às crianças do Brasil em sigilo, e só soubemos depois de morto. Falava de Deus dentro do cockpit. Tombou em Ímola, em 1994, no fim de semana em que outro piloto já havia ido, e levava no carro uma bandeira para homenageá-lo. Três milhões foram chorar a sua perda, e eu fui um deles.

Lewis Hamilton tem sete títulos, mais vitórias e mais poles que qualquer um, e foi, nos números, soberano. Sou justo outra vez: correu quase o dobro das temporadas de Senna, no carro mais dominante e mais seguro que este esporte já viu, numa era em que ninguém mais morre; e teve o mérito raro de abrir, sendo o único negro do grid, uma porta que estava lacrada, e de levantar causas verdadeiras contra o racismo. Mas a sua nobreza é a do nosso tempo: a virtude que se anuncia, o gesto que vira manchete e contrato. A de Senna se pagava com a pele e com o silêncio. Um ergueu a bandeira de um morto e arriscou a vida por um adversário. O outro, num mundo sem perigo, publica o bem que pratica.

E fecho com a bola, que é a nossa paixão e a nossa régua.

Pelé saiu de engraxate, em Três Corações, e fez-se Rei. Ganhou a primeira Copa em 1958, aos dezessete anos, marcando duas vezes na final; ganhou a de 1962; e consagrou-se na de 1970, no melhor time que já existiu, com aqueles lances que ninguém apaga, a finta sem tocar na bola, o passe para o gol de Carlos Alberto. Passou dos mil gols. E fez tudo isso com uma pelota de couro que, quando encharcava, pesava como pedra, em campos barrentos, apanhando de zagueiros com licença para matá-lo, tanto que o chutaram para fora da Copa de 1966. Encerrada a carreira, foi embaixador do mundo por meio século, com uma dignidade sem nódoa ou vulgaridade.

Neymar tem um dom que não nego, e é vasto; chegou a superar Pelé em gols pela seleção. Superou, contudo, noutro tempo: com jogos em excesso, amistosos de sobra, pênaltis fartos, gramados de veludo e regras que proíbem encostar nele. Concedo o talento e nego a grandeza. Levantou uma Liga dos Campeões, é verdade, mas a Copa que devia coroá-lo jamais veio, e a de casa, em 2014, ele assistiu quebrado, antes da vergonha do sete a um. Rolou pelo chão diante do planeta a ponto de virar chacota; mudou de país atrás de dinheiro até o deserto; fez da própria carreira uma vitrine de marca. Pelé carregou uma nação nas costas e virou mito. Neymar carrega um patrocínio no peito e é celebridade. A mesma matéria-prima nos pés, a estatura oposta na alma!…

É a mesma régua nos quatro casos, e ela não falha. Deixem aos modernos os números, os troféus, as voltas mais rápidas e os seguidores. Fico eu com a estatura e com o caráter: o general que morreu pela paz, o presidente que convocou ao sacrifício, o piloto que arriscou a vida por um rival, o rei que carregou um povo. Não é saudosismo de um velho. É valorizar a alma das coisas, a nobreza e a honra que há nelas.

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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