Pessach
Umas três semanas atrás eu cheguei ao posto de meu primo Eduardo, na Ponta D’areia, e ele estava conversando com um de seus frentistas. O rapaz estava pedindo permissão a ele para distribuir aos clientes do posto um folheto confeccionado por sua igreja a respeito da páscoa que se aproximava.
Eduardo argumentava que não haveria nenhum problema, mas que o rapaz ficasse atento, pois algum cliente poderia achar inconveniente tal abordagem, poderia se achar de alguma forma agredido por aquela ação. Coisas da modernidade. Tempo onde todos nós nos sentimos invadidos pela ação das pessoas. Bobagem, bastaria receber o panfleto e caso não quisesse levar em consideração, dobrar, guardar e depois jogar no lixo. Simples assim!
Mas eu fiquei muito curioso em saber se aquele rapaz, nitidamente evangélico, sabia com exatidão o que se festejaria, se ele sabia a diferença da páscoa para a Semana Santa. Impertinente, não me contive e perguntei-lhe se ele sabia a diferença da páscoa judaica para a páscoa cristã. Ele calmamente, com um sorriso maroto nos lábios, respondeu: “a páscoa judaica comemora a libertação dos judeus do cativeiro do Egito, a páscoa cristã comemora a nossa, a libertação de todos nós, através da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, que aconteceu exatamente durante a comemoração da páscoa judaica, há pouco mais de 2000 anos atrás”.
Fiquei sem palavras, pois era a primeira vez que ouvia a resposta exata, pelo menos aquela que eu gostaria de ouvir, mesmo que incompleta, faltando pequeninos detalhes que só os historiadores, jamais os religiosos levariam em consideração sobre o que realmente é a festa da páscoa.
A páscoa é uma festa judaica realizada em memória da morte dos primogênitos e da libertação dos israelitas de sua escravidão no Egito. O nome páscoa deriva de uma palavra hebraica Pessach que significa a passagem do anjo exterminador, o instrumento de Deus usado para realizar a décima e última praga enviada por Ele para obrigar o faraó do Egito a libertar o povo de Moisés do cativeiro. O anjo passou pelas terras do Nilo fazendo perecer os primogênitos de todas as casas, tendo sido poupadas apenas as habitações dos israelitas, cujas portas haviam sido ungidas com o sangue de um cordeiro. Era tão rigorosa a obrigação de guardar a páscoa, que todo aquele que não cumprisse tal preceito seria condenado à morte.
Os tempos mudaram tanto que para muitos gerentes de lojas de chocolate, padarias e supermercados, a páscoa é simplesmente uma data instituída pelo Clube de Diretores Lojistas ou pela Associação Comercial para incrementar as vendas nessa época difícil entre o carnaval e o São João.
Algumas crianças acham até que os coelhinhos põem ovos. Só algumas! A sobrinha de um amigo meu, com quem encontrei essa semana, num Shopping Center da cidade, pedia insistentemente que o tio comprasse para ela um ovo de chocolate e no meio de sua tese de convencimento a garotinha de cabelos encaracolados e com uma carinha de sapeca disse ao tio que ela queria um ovo de chocolate, não de coelho, pois coelho é mamífero e mamífero não põe ovo e se pusesse não seria de chocolate, seria de coelhinhos. Ao ver aquela cena lembrei que durante muitos anos, enquanto criança, acreditava que Papai Noel existia e até que os coelhos, na época da páscoa, punham ovos de chocolate. Não se fazem mais crianças como antigamente.
Há nessa historia toda, porem, uma coincidência interessante – se bem que meu irmão Nagib, que é evangélico, diz que não existem coincidências, mas sim desígnios divinos – a páscoa cristã, ou seja, a salvação dos homens consequência do martírio e da morte de um justo, Jesus de Nazaré, aconteceu exatamente quando os judeus comemoravam a sua páscoa, ocasião em que festejam a sua libertação do cativeiro egípcio.
Pode até ser que, como dizem alguns incrédulos, que tudo tenha sido orquestrado minuciosamente para acontecer conforme estava previsto nas escrituras proféticas, mas pelo beneplácito da dúvida, acredito firmemente que a páscoa seja mesmo a ocasião para comemorarmos a salvação, a libertação, não só de nossos corpos, mas também de nossas almas, de nossas consciências e de nossas mentes, que merecem não ser escravizadas por dogmas religiosos a serviço única e exclusivamente cooptação de fieis seguidores.
Não comer carne vermelha e presentear as pessoas com ovos de chocolate são apenas dois dos muitos costumes que nós seres humanos nos impomos como uma das marcas registradas de nossa espécie.
Shalom!
Salam aleikum!
Que a paz seja convosco!
PS: Quero dedicar minhas orações no sentido de canalizar a energia dos sentimentos de libertação e salvação representados pela páscoa, tanto a judaica quanto a cristã, em benefício de meus queridos amigos Ribamar Fiquene, Roberto Macieira, Jair Andrade e Hermínio de Lima, que se encontram enfermos, para que eles se restabeleçam logo e voltem ao convívio normal de seus familiares e amigos.
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