
São Luís – Yasmin Mariah partiu de uma pergunta provocadora para construir sua experiência curatorial: como enxergar de outra maneira aquilo que parece familiar? Estudante da Parsons School of Design e ligada à pesquisa e à prática curatorial, ela assinou a curadoria da exposição “Sombra & Sol – O Infamiliar na Arte Latino-Americana”, realizada pelo Instituto Nacional de Artes dos Lençóis Maranhenses (INALMA).
A mostra foi apresentada nos dias 19, 20 e 21 de agosto, no Espaço Coworking do Departamento de Computação (DCOMP), no IFMA – Campus São Luís/Monte Castelo. Reunindo diferentes linguagens das artes visuais contemporâneas, a exposição propôs ao público uma experiência marcada pela reflexão, pela memória e por múltiplas possibilidades de interpretação.
Mais do que apresentar obras, a curadoria buscou criar um espaço capaz de deslocar o olhar do visitante. A proposta era fazer com que aquilo que normalmente passa despercebido pudesse ganhar novos sentidos.

O “infamiliar” como ponto de partida
No centro da exposição estava o conceito de “infamiliar”, tradução do termo alemão Das Unheimliche, trabalhado pelo psicanalista Sigmund Freud.
A ideia está relacionada a algo que, embora conhecido e familiar, repentinamente revela uma dimensão estranha, inquietante ou inesperada. Na exposição, esse conceito foi ampliado para dialogar com experiências presentes em diferentes territórios da América Latina.
Memória, identidade, território e pertencimento apareceram, assim, entrelaçados a histórias de transformação, desigualdade, reconhecimento e estranhamento.
A escolha do conceito permitiu que a exposição não se limitasse a uma interpretação única. Em vez de oferecer respostas prontas, “Sombra & Sol” convidou o visitante a permanecer diante das dúvidas e ambiguidades.
Uma curadoria que aproximou o público da obra
Um dos diferenciais da proposta de Yasmin Mariah foi justamente na relação estabelecida entre público e produção artística.
A intenção foi ultrapassar a ideia de que uma exposição deve ser apenas observada. As obras foram apresentadas como possibilidades de encontro, capazes de despertar lembranças, associações e experiências particulares.
Cada visitante pôde, portanto, construir seu próprio percurso.
O espaço expositivo se transformou em um território de encontros entre diferentes linguagens, experiências individuais e coletivas e, principalmente, entre aquilo que reconhecemos e aquilo que nos causa estranhamento.

Luz, sombra e as muitas faces da experiência latino-americana
O título da mostra traduziu uma das principais características de sua proposta. Luz e sombra, presença e ausência, natureza e cultura, reconhecimento e estranhamento são contrastes que atravessam a exposição.
Essas relações também ajudam a pensar a própria experiência latino-americana, marcada por diferentes histórias, identidades, transformações e formas de pertencimento.
A partir de São Luís, a exposição estabeleceu conexões com questões que ultrapassam os limites do Maranhão. O território local tornou-se ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre memória e identidade.
São Luís como território de criação e reflexão
Realizar uma exposição com alcance latino-americano a partir da capital maranhense também evidenciou a força da produção artística contemporânea feita em São Luís.
Ao colocar São Luís no centro desse diálogo, “Sombra & Sol” mostrou que reflexões sobre identidade, memória e território podem nascer de experiências locais e, ao mesmo tempo, conversar com questões presentes em diferentes partes da América Latina.
A arte aparece, nesse contexto, como ferramenta para revisitar narrativas e questionar aquilo que muitas vezes é tratado como natural.

INALMA amplia diálogo com as artes visuais
A exposição integrou as ações do Instituto Nacional de Artes dos Lençóis Maranhenses (INALMA) voltadas à valorização da produção artística, à formação de público e à aproximação entre artistas, instituições e sociedade.
A coordenação-geral ficou sob responsabilidade de Eliana Rose Calisto Cunha, formada em Licenciatura em Artes Visuais pelo IFMA – Campus São Luís/Centro Histórico.
A iniciativa reforçou o papel das artes visuais como espaço de memória, pensamento crítico e construção de novas narrativas.
No percurso proposto por Yasmin Mariah, o visitante foi convidado a olhar duas vezes: primeiro para aquilo que estava diante dos olhos e, depois, para aquilo que permanecia escondido, silenciado ou pouco percebido.