Felipe Fernandes: “Quando o pasto não é mais o seu endereço”

Felipe Fernandes: “O sucesso não chega anunciando que vai mudar nossos valores”

Assisti há poucos dias a uma palestra que me fez reler uma história que conheço desde menino.

Deus envia o profeta Samuel à casa de Jessé, em Belém, para ungir aquele que seria o futuro rei de Israel. Jessé apresenta seus filhos. Samuel olha para Eliabe, o mais velho, forte e de boa aparência, e imagina que certamente seria aquele o escolhido. Mas Deus lhe ensina ali uma lição que atravessaria séculos: o homem olha para aquilo que está diante dos olhos; Deus olha para o coração.

Um por um, os filhos de Jessé passam diante de Samuel. Nenhum deles era o escolhido.

Até que Samuel pergunta se aqueles eram todos os filhos.

Não eram.

Faltava o mais novo.

Davi nem sequer havia sido chamado para aquela reunião. Estava no pasto, cuidando das ovelhas da família. Mandaram buscá-lo. Quando o menino chegou, Deus disse a Samuel que era ele. E ali, diante dos irmãos, Davi foi ungido. A história está no capítulo 16 de 1 Samuel.

Antes de existir o rei Davi, existia um pastor que passava os dias cuidando de animais longe dos olhos de quase todo mundo.

Foi no pasto que ele aprendeu a vigiar, proteger, esperar, assumir responsabilidades e enfrentar perigos sem plateia. Quando um leão ou um urso ameaçava o rebanho, não havia exército para ajudá-lo. Quando todos dormiam, alguém precisava permanecer atento. Foi também naquele ambiente que sua relação com Deus foi sendo construída.

O pasto não era apenas o endereço de Davi.

Era sua escola.

Depois vieram Golias, as batalhas, o reconhecimento e, muitos anos mais tarde, o palácio. O menino esquecido no campo tornou-se rei de Israel.

O endereço havia mudado.

E talvez seja justamente aí que comece a parte mais interessante da história.

Não existe nada de errado em sair do pasto. Muito pelo contrário. Não acredito que exista virtude especial em permanecer pequeno, pobre ou desconhecido. Trabalhamos para crescer, prosperar, melhorar a vida de nossas famílias, construir patrimônio e chegar a lugares aos quais ainda não chegamos.

O problema nunca foi o palácio.

O problema começa quando, depois de chegar ao palácio, começamos a abandonar aquilo que aprendemos no pasto.

No pasto, Davi precisava estar atento. No palácio, passou a ter pessoas para fazer quase tudo por ele. No pasto, dependia de Deus diante dos perigos. No palácio, tinha poder, soldados, riqueza e autoridade. No pasto, precisava controlar a si mesmo porque não controlava quase nada ao redor. No palácio, passou a controlar quase tudo ao redor — e justamente por isso passou a precisar controlar ainda mais a si mesmo.

Foi já no palácio que Davi cometeu alguns dos erros mais graves de sua vida. O episódio envolvendo Bate-Seba e Urias, narrado em 2 Samuel 11, mostra até onde pode chegar alguém quando o poder começa a diminuir as barreiras que antes limitavam seus desejos.

O pasto havia formado Davi. O palácio começou a testá-lo.

Talvez isso aconteça conosco muito mais do que percebemos.

A disciplina que construiu o patrimônio vai sendo substituída pelo conforto que o patrimônio permite. A atenção aos detalhes diminui porque agora existem pessoas para cuidar deles. A reputação, construída durante décadas, começa a ser arriscada em decisões que jamais seriam tomadas quando quase tudo o que se possuía era o próprio nome.

E talvez a parte mais perigosa seja que raramente percebemos isso acontecendo.

O sucesso não chega anunciando que vai mudar nossos valores. Ele apenas começa a retirar, uma a uma, algumas das circunstâncias que nos obrigavam a praticá-los.

É fácil ser disciplinado quando a alternativa é não sobreviver. Difícil é continuar disciplinado quando já não precisamos provar nada para ninguém. O verdadeiro teste começa quando as portas se abrem, as pessoas concordam conosco e quase tudo passa a estar ao nosso alcance.

É por isso que existem ativos que deveriam crescer junto com o patrimônio, e não ser consumidos por ele.

Caráter. Reputação. Família. Fé. Disciplina. Gratidão. Paz.

Nenhum deles aparece no balanço patrimonial, mas todos sustentam aquilo que aparece.

Na palestra, Deive Leonardo voltou justamente à história de Davi e ao Salmo 51, escrito depois de um de seus maiores erros. Arrependido, Davi faz um pedido que revela o que finalmente havia compreendido: “não me lances fora da tua presença e não retires de mim o teu Espírito”.

A leitura que Deive fez dessa passagem me marcou. Em outras palavras, Davi parecia dizer: Deus pode tirar o ouro, pode tirar o palácio, pode tirar aquilo que é temporário. Mas não me tire aquilo que me sustentou quando eu ainda não tinha nada disso.

Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes que o sucesso nos obriga a fazer: o que eu não posso perder enquanto conquisto tudo aquilo que desejo?

Porque algumas perdas não aparecem na conta bancária. Às vezes o patrimônio cresce enquanto a família se distancia, e o reconhecimento chega enquanto a paz diminui. Por fora, parece que continuamos vencendo. Por dentro, talvez já tenhamos começado a perder.

O pasto não precisa continuar sendo o nosso endereço. Espero, inclusive, que consigamos sair dele. Que possamos prosperar, construir, realizar e chegar aos nossos próprios palácios.

Mas algumas coisas precisam chegar ao palácio conosco.

O endereço pode ser o palácio. Mas algumas coisas aprendidas no pasto nunca deveriam mudar de endereço.

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QUEM SOU EU

Jornalista profissional formado pela Universidade Federal do Maranhão e que há mais de 20 anos integra o staff do Grupo Mirante, Evandro Júnior é do Imirante.com, titular da coluna Tapete Vermelho, dentro do Caderno PH Revista, e coordenador e colaborador diário e interino da coluna de Pergentino Holanda (PH) no Imirante.com. A proposta é trazer informações sobre generalidades, com um destaque especial para as esferas cultural, empresarial e política.

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