Cristiano Sardinha: “Maravilhoso Defunto”

Cristiano Sardinha: “Desde a Antiguidade, os estoicos compreenderam que a consciência da finitude confere à vida um valor ainda maior”

Às vezes parece que, se alguém estiver ansioso por receber elogios dos melhores amigos e familiares, o caminho mais curto é a própria morte. Quem já compareceu a velórios e testemunhou a reza pela alma do falecido, as ladainhas entoadas em sua homenagem e as enormes coroas de flores conhece muito bem essa realidade.

Enquanto o defunto esfria, perto do caixão ouve-se: “Os bons vão primeiro”, “Todo mundo gostava dele”, “Vai deixar muita saudade”, “Era uma pessoa tão maravilhosa” etc.

A sensação que se tem é que, quando o sujeito cruza os portões do além, os escudos dos vivos vão por terra. Nesse momento, as mágoas, a vaidade, o orgulho e as mesquinharias são geralmente colocados de lado. O elogio passa a ser autorizado e até bem-vindo.

“Está morto: podemos elogiá-lo à vontade” é uma das frases mais impactantes do conto O Empréstimo, publicado em 30 de julho de 1882 na Gazeta de Notícias, de autoria de Machado de Assis. Com sua fina ironia, o escritor descortina a hipocrisia humana, mostrando que, quando uma pessoa morre, é coberta de elogios, pois o falecido não pode mais competir com ninguém.

Sobre o tema, Clarice Lispector refletiu:

“Mesmo os grandes homens só são verdadeiramente reconhecidos e homenageados depois de mortos. Por quê? Porque os que elogiam precisam se sentir, de algum modo, superiores ao elogiado; precisam conceder”.

Desde a Antiguidade, os estoicos compreenderam que a consciência da finitude confere à vida um valor ainda maior, tornando-a uma dádiva a ser profundamente apreciada. Nesse sentido, é essencial que também saibamos reconhecer a importância das pessoas enquanto elas ainda estão neste plano existencial.

Uma sábia, do alto dos seus 99 anos, disse-me recentemente: “Não quero choro e homenagens no meu velório. Se alguém quer me dizer algo de bom, que o diga agora, quando ainda estou viva!”.

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QUEM SOU EU

Jornalista profissional formado pela Universidade Federal do Maranhão e que há mais de 20 anos integra o staff do Grupo Mirante, Evandro Júnior é do Imirante.com, titular da coluna Tapete Vermelho, dentro do Caderno PH Revista, e coordenador e colaborador diário e interino da coluna de Pergentino Holanda (PH) no Imirante.com. A proposta é trazer informações sobre generalidades, com um destaque especial para as esferas cultural, empresarial e política.

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